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REINO DE

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MARGARITIA

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Habitantes do solar II

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Há moradores no Solar que cuidam de histórias.

 

Há moradores que cuidam de memórias.

 

Há moradores que cuidam de jardins.

 

E há aqueles que cuidam da própria casa.

 

São conhecidos como Patas à Obra.

 

Cinco huskies.

 

Cinco construtores.

 

Cinco especialistas em transformar ideia em lugar.

 

Porque o Solar cresce.

 

E toda casa que cresce precisa de quem compreenda a linguagem das paredes.

 

---

 

Diferente dos demais moradores, os Patas à Obra raramente permanecem muito tempo no mesmo lugar.

 

Quando uma nova porta aparece.

 

Quando uma varanda decide existir.

 

Quando uma biblioteca pede mais estantes.

 

Quando um quarto sonha em nascer.

 

Eles chegam.

 

Com ferramentas.

 

Com planos.

 

Com entusiasmo.

 

E com a estranha capacidade de conversar com materiais como se fossem velhos amigos.

 

---

 

Carvalho

 

Guardião da memória da madeira.

 

Carvalho não escolhe tábuas.

 

Escolhe histórias.

 

Conhece veios, nós e marcas do tempo como quem lê livros.

 

Acredita que toda madeira guarda lembranças de algo que já viveu.

 

Por isso suas criações nunca parecem novas.

 

Parecem antigas desde o primeiro dia.

 

Como se sempre tivessem pertencido ao Solar.

 

"Algumas madeiras lembram florestas. Outras lembram casas que ainda não existem."

 

---

 

Pigmento

 

Guardião da emoção da cor.

 

Pigmento vê tonalidades onde os outros enxergam apenas tinta.

 

Para ele, cores possuem personalidade.

 

Memória.

 

Temperamento.

 

Existem paredes que pedem silêncio.

 

Existem paredes que pedem alegria.

 

Existem paredes que pedem coragem.

 

E Pigmento sabe ouvi-las.

 

Seus respingos são famosos.

 

Não por acidente.

 

Por sinceridade.

 

"Nenhuma cor nasce pronta. Ela precisa encontrar seu sentimento primeiro."

 

---

 

Argamassa

 

Guardião da permanência.

 

Argamassa compreende algo que poucos compreendem:

 

tudo precisa de tempo para se tornar forte.

 

Enquanto os outros trabalham com movimento, ele trabalha com espera.

 

Levanta paredes.

 

Assenta tijolos.

 

Fortalece fundações.

 

E lembra constantemente aos demais que algumas coisas não podem ser apressadas.

 

"Aquilo que sustenta raramente é aquilo que recebe os aplausos."

 

---

 

Faísca

 

Guardião da possibilidade.

 

Faísca trabalha com luz.

 

Mas não apenas luz elétrica.

 

Luz de ideia.

 

Luz de descoberta.

 

Luz de futuro.

 

É ele quem garante que os corredores continuem acolhedores durante a noite.

 

Que as janelas brilhem no inverno.

 

Que as pequenas lanternas espalhadas pela casa nunca esqueçam seu trabalho.

 

"Toda luz começa como uma possibilidade."

 

---

 

Rolo

 

Guardião da ajuda silenciosa.

 

Ninguém sabe exatamente qual é sua função.

 

Porque sua função muda o tempo todo.

 

Está onde falta alguém.

 

Carrega.

 

Mistura.

 

Busca.

 

Organiza.

 

Ajuda.

 

Escuta.

 

Aparece.

 

Desaparece.

 

E reaparece em outro lugar.

 

Por isso muitos moradores dizem que Rolo não possui uma profissão.

 

Possui disponibilidade.

 

"Há quem construa paredes. Há quem construa condições para que as paredes existam."

 

---

 

A Matilha

 

Os cinco trabalham juntos.

 

Não por obrigação.

 

Por natureza.

 

Huskies entendem matilhas.

 

E Patas à Obra entendem que nenhuma construção acontece sozinha.

 

Quando uma nova parte do Solar surge, dificilmente alguém consegue dizer quem foi responsável.

 

Porque a resposta costuma ser a mesma:

 

todos.

 

Carvalho ofereceu memória.

 

Pigmento ofereceu emoção.

 

Argamassa ofereceu permanência.

 

Faísca ofereceu possibilidade.

 

Rolo ofereceu ajuda.

 

E juntos transformaram espaço em lar.

 

---

 

Hoje continuam trabalhando.

 

Sempre trabalhando.

 

Porque o Solar nunca está terminado.

 

Uma casa viva não termina de crescer.

 

E os Patas à Obra sabem disso melhor do que ninguém.

 

Enquanto houver histórias novas para acontecer, haverá paredes para sustentar, portas para instalar, luzes para acender e cores para descobrir.

 

E em algum lugar da casa, cinco huskies estarão uivando para celebrar mais uma obra concluída.

 

Ou o começo da próxima.

Há no Solar moradores que cuidam de jardins.

 

Moradores que cuidam de histórias.

 

Moradores que cuidam de memórias.

 

E há Trevoso.

 

Fantasma profissional.

 

Ou pelo menos é isso que ele insiste em dizer.

 

A verdade é que ninguém jamais o viu assustar alguém com sucesso.

 

Nem uma única vez.

 

---

 

O Fantasma das Pequenas Assombrações

 

Trevoso mora nos corredores silenciosos.

 

Nas escadas depois do anoitecer.

 

Nos cantos onde a luz da lanterna encontra a sombra.

 

Não porque goste da escuridão.

 

Porque acredita que é exatamente ali que um fantasma deveria morar.

 

Seu grande sonho é ser assustador.

 

Mas existe um problema.

 

Trevoso é extremamente gentil.

 

E isso atrapalha bastante.

 

Sempre que tenta assustar alguém, acaba pedindo desculpas logo depois.

 

Às vezes antes.

 

---

 

O Primeiro "BU!"

 

Dizem que sua primeira tentativa de assombração aconteceu muitos anos atrás.

 

Ele surgiu atrás de Madame Hey durante uma madrugada silenciosa.

 

Abriu os braços.

 

Respirou fundo.

 

E gritou:

 

— BU!

 

Madame Hey olhou para ele.

 

Sorriu.

 

Ofereceu chá.

 

Desde então, Trevoso nunca conseguiu recuperar totalmente sua reputação.

 

---

 

As Madrugadas

 

É durante a madrugada que ele aparece.

 

Não para assustar.

 

Para fazer companhia.

 

Quando alguém não consegue dormir.

 

Quando uma história termina tarde demais.

 

Quando a chuva resolve conversar com as janelas.

 

Quando a saudade aparece sem convite.

 

Trevoso costuma surgir por perto.

 

Silencioso.

 

Sentado.

 

Ouvindo.

 

Às vezes não diz nada.

 

Às vezes pede que contem mais uma história.

 

Porque adora histórias.

 

Especialmente as que terminam bem.

 

---

 

O Clube das Histórias de Meia-Noite

 

Poucos sabem disso.

 

Mas Trevoso é fundador do Clube das Histórias de Meia-Noite.

 

Um encontro informal que acontece sempre que duas ou mais criaturas permanecem acordadas depois da hora.

 

Não existe inscrição.

 

Não existe convite.

 

Não existe regra.

 

A única exigência é gostar de ouvir.

 

Os participantes se reúnem perto da lareira.

 

Ou na Biblioteca Cogumelo.

 

Ou em algum corredor que pareça especialmente confortável naquela noite.

 

E contam histórias.

 

Trevoso raramente fala.

 

Mas escuta como ninguém.

 

---

 

O Medo

 

Curiosamente, Trevoso entende muito bem o medo.

 

Talvez porque passe tanto tempo tentando provocá-lo.

 

Ele sabe que existem medos grandes.

 

E medos pequenos.

 

Os grandes precisam de coragem.

 

Os pequenos precisam de companhia.

 

Por isso costuma aparecer quando alguém está sozinho.

 

Não para afastar o medo.

 

Mas para lembrar que ninguém precisa enfrentá-lo sem companhia.

 

---

 

O Que Ele Acredita

 

Trevoso acredita que toda casa precisa de um fantasma.

 

Não para assustar.

 

Para lembrar.

 

Lembrar que mistério também é parte do encanto.

 

Que corredores escuros podem guardar histórias.

 

Que sombras nem sempre escondem perigos.

 

Às vezes escondem amigos.

 

E acredita, acima de tudo, que um bom fantasma nunca deve deixar alguém se sentir sozinho.

 

---

 

Hoje

 

Continua vagando pelo Solar.

 

Praticando sustos.

 

Falhando quase sempre.

 

Pedindo desculpas.

 

Ouvindo histórias.

 

Tomando chá.

 

Aparecendo nas madrugadas silenciosas.

 

E mantendo viva sua longa e respeitável carreira como o fantasma menos assustador que já existiu.

 

---

 

«"BU!"

 

— seguido imediatamente por:

 

"Desculpe. Foi muito alto?"

 

---

 

No Solar, acreditamos que nem todo fantasma existe para causar medo. Alguns existem para acompanhar noites silenciosas, guardar histórias contadas à luz de vela e lembrar que até a escuridão pode ser acolhedora. Trevoso, o Fantasma das Pequenas Assombrações, é essa crença vestida de lençol, laço borboleta e boas intenções.

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Magistér

 

Existe um morador da Biblioteca Cogumelo que conhece cada livro, cada página e cada história que vive por ali.

 

Seu nome é Magistér.

 

Um grande corvo de penas negras, olhar atento e uma única pena branca escondida entre a plumagem.

 

Ninguém sabe como ela apareceu.

 

Alguns dizem que representa um antigo segredo.

 

Outros acreditam que é apenas uma pena diferente.

 

Magistér nunca respondeu.

 

Ele mora na Biblioteca Cogumelo há tanto tempo que ninguém consegue imaginar aquele lugar sem sua presença.

 

Enquanto os outros moradores passeiam pelos corredores, ele observa tudo do alto das prateleiras.

 

Parece sempre saber onde está cada livro.

 

Mesmo aqueles que ainda nem foram escritos.

 

É raro vê-lo voando.

 

Quando isso acontece, seu voo é silencioso e preciso, como se já soubesse exatamente onde pretende chegar.

 

Magistér gosta de fazer perguntas.

 

Mas gosta ainda mais de responder uma pergunta com outra.

 

Se alguém pergunta:

 

— Magistér, qual é o caminho certo?

 

Ele costuma responder:

 

— Antes de procurar o caminho... você já descobriu para onde deseja ir?

 

Nem sempre suas respostas são fáceis.

 

Mas quase sempre fazem quem perguntou pensar um pouco mais.

 

Na Biblioteca Cogumelo existe uma regra curiosa.

 

Quando um livro desaparece...

 

Ninguém procura por ele.

 

Primeiro perguntam ao Magistér.

 

Na maioria das vezes ele apenas inclina a cabeça em direção à prateleira correta.

 

Como se dissesse:

 

"Você procurou... mas não observou."

 

Bento costuma ajudá-lo.

 

Sempre que encontra uma folha solta, um desenho perdido ou uma página esquecida pelo jardim, leva tudo até a Biblioteca Cogumelo.

 

Magistér recebe cada lembrança com enorme cuidado.

 

Porque acredita que nenhuma história é pequena demais para ser preservada.

 

Tobias Vagalume vive escondendo sementes entre os livros.

 

Isso deixa Magistér profundamente intrigado.

 

Ele nunca entende por que alguém colocaria uma semente dentro de uma biblioteca.

 

Mas também nunca a retira.

 

Meses depois, quando uma pequena margarida nasce perto de uma prateleira, ele apenas suspira.

 

Como se fingisse não ter gostado da surpresa.

 

Leonardo e Magistér compartilham um respeito silencioso.

 

Os dois gostam da noite.

 

Os dois observam mais do que falam.

 

Quando seus olhares se encontram, parece que uma longa conversa aconteceu sem que uma única palavra fosse dita.

 

Madame Hey costuma visitar a Biblioteca Cogumelo em busca de inspiração.

 

Nem sempre encontra Magistér.

 

Às vezes ele está escondido entre as raízes.

 

Às vezes observa tudo do alto.

 

E, em algumas ocasiões, apenas deixa uma pena preta sobre um livro.

 

Quem encontra uma dessas penas sabe que Magistér esteve ali.

 

Talvez tenha aprovado aquela leitura.

 

Talvez apenas tenha percebido que alguém realmente prestou atenção à história.

 

Ninguém sabe ao certo.

 

E ele prefere que continue assim.

 

Apesar de sua aparência séria, Magistér gosta de ver novas histórias nascerem.

 

Acredita que livros existem para serem lidos.

 

Perguntas existem para serem feitas.

 

E que aprender nunca termina.

 

Talvez seja por isso que tenha escolhido morar justamente na Biblioteca Cogumelo.

 

Um lugar onde todos os dias surge uma nova história esperando por alguém curioso o bastante para descobri-la.

 

---

 

No Solar das Margaridas, acreditamos que o conhecimento cresce quando é compartilhado. Magistér nos lembra que as melhores respostas quase sempre começam com uma boa pergunta e que toda história merece alguém disposto a escutá-la.

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Há no Solar um conselho que não governa. Que não decide. Que apenas comenta.

 

Não é conselho de mesa redonda, de voto, de minuta. É conselho de quintal, de terra batida, de olhar de lado enquanto bicam. É conselho de galinhas, e galinhas, no Solar, são presença que sabe.

 

São nove. Nove nomes que a Madame Hey deu, cada um com história que não lembra, cada um com personalidade que inventou e elas confirmaram. Nove vozes que não falam simultaneamente, mas sempre falam, e entre elas, cobrem tudo.

Nome                       Especialidade                                     Observação

Margareth      Chegadas e partidas           Sabe antes de abrir portão

Josefina        Migalhas e quem as deixa          Memória de estômago

Judith                Brigas e tensões                  Cisca mais perto quando há conflito

Bernadete            Choro e tristeza               Fica quieta, o que é raro

Abigail                  Estranhos no jardim        Primeira a cantar alarme

Berenice                 Tempo e mudança              Sabe quando chuva vem antes do céu

Filomena              Histórias antigas               A mais velha, a que não esquece

Betty              Alegria inesperada                      Canta sem motivo, que é motivo

Dolores         Perdas e ausências                     Procura o que sumiu, sem encontrar

Clotilde            Silêncios necessários            Para de bicar quando alguém precisa ouvir nada

Como sabem

 

Não sabem tudo. Sabem o que importa.

 

Sabem porque estão sempre ali. No quintal, no limiar, no quase dentro e quase fora. Galinhas não entram na casa, não é delas, é de quem paga aluguel de outra forma. Mas ficam perto o suficiente para que a casa não se esconda delas.

 

Margareth, na cerca, vê quem chega. Não apenas vê: avalia. Postura de quem entra, peso de passo, intenção que não está em rosto mas está em ombro. Ela sabe e conta para as outras, em linguagem de galinha que não é fala, é comportamento, é quem cisca onde e quando.

 

Josefina sabe de migalhas. Sabe quem deixou, quando, por quê. Sabe que migalha não é lixo, migalha é lembrança de comida, é resto de atenção, é eu pensei em você enquanto comia. Ela as recolhe, não com gratidão, com reconhecimento. E reconhecimento, no Solar, é forma de amor.

 

Judith sabe de brigas. Não porque entenda palavras, palavras são para quem tem ouvido de humano. Entende vibração: passo rápido, porta que bate, silêncio que é ausência de som que deveria estar. Quando há briga, Judith cisca mais perto. Não para ouvir. Para testemunhar. Para que, depois, quando perguntarem "o que aconteceu?", haja alguém que viu, mesmo que não explique.

 

 

---

 

Sir Ratatônio e o dilema

 

Sir Ratatônio acha elas indiscretas. Com razão. Galinhas que sabem demais são ameaça para rato que vive de sigilo, de espaço entre, de não ser visto.

 

Mas, mas ele sabe também: se algo estranho acontece no jardim, as galinhas sempre viram primeiro.

 

Não que entendam o estranho. Não que expliquem. Mas reagem: param de ciscar, erguem pescoço, olham para lugar onde não há nada, ou onde ainda não há nada. E Ratatônio, vendo reação, sabe que algo virá.

 

É aliança incômoda. Ele não pede informação; elas não oferecem. Mas há troca: ele deixa migalhas em lugares estratégicos, elas deixam de comentar onde ele passa. Não é amizade. É acordo de vizinhança, que é forma mais antiga de paz.

 

 

---

 

O que comentam

 

Não falam de política, de filosofia, de sentido da vida. Falam, se falar é palavra certa, de o que é.

 

Que a Madame Hey acordou mais cedo hoje, e isso significa preocupação.

 

Que Tobias Vagalume piscou mais vezes na noite passada, e isso significa amor, ou medo, ou ambos, que são a mesma coisa.

 

Que o Gato do Jardim da Meia-Noite esteve na cerca, na cerca, não no jardim, na cerca e isso significa limiar sendo testado, e isso é notícia que merece ciscar mais perto da sombra.

 

Que Morcélio da Silva, apesar de noctívago, esteve perto da casa à tarde, e isso significa queijo bom demais para esperar, e isso é notícia de queijo, que é notícia que importa.

 

 

Filomena, a mais velha, comenta história. Não conta, galinhas não contam, repetem comportamento que é história. Quando ela cisca em certo lugar, as outras sabem: ali aconteceu algo, uma vez, que não deve ser esquecido. O quê? Não importa. Importa lembrar que aconteceu.

 

Betty, a mais jovem, canta sem motivo. O que é motivo: alegria existe, deve ser anunciada. As outras não reclamam. Reclamar de alegria seria indiscrição maior que alegria mesma.

 

 

---

 

A sabedoria esquecida

 

Galinhas, no mundo lá fora, são símbolo de besteza. De besta, no sentido de não pensar, de apenas bicar, ciscar, pôr ovo, morrer.

 

No Solar, são símbolo oposto: de sabedoria que não precisa de inteligência. De saber que é corpo, que é terra, que é tempo passado no mesmo lugar até que o lugar revele segredo.

 

Bernadete sabe quando chuva vem. Não porque leia céu, lê pó, lê inseto, lê cheiro que não tem nome mas tem direção. Berenice sabe quando mudança vem. Não porque ouça notícia, ouve passo diferente na casa, porta que abre mais tarde, Madame Hey que fala sozinha em tom novo.

 

Isso não é mágica. É permanência. É atenção. É o que acontece quando se está no mesmo lugar, dia após dia, sem pressa de ir embora, de ser outra, de melhorar.

 

"O Conselho das Galinhas não é sábio porque sabe muito. É sábio porque esqueceu de que precisa saber de tudo para ser importante."

 

 

---

 

Hoje

 

As nove continuam no quintal. Continuam bicando, ciscando, pondo ovos que não são para venda, são para continuidade. Continuam comentando em linguagem de galinha, que é linguagem de presença, de postura, de quem está perto de quem e por quê.

 

Sir Ratatônio continua achando-as indiscretas. Continua deixando migalhas. Continua olhando, de relance, para ver se reagem e quando reagem, preparando-se para o que virá.

 

A Madame Hey continua não entendendo tudo o que sabem. Não precisa. Precisa apenas saber que sabem, e que, em casa que é Solar, não há conhecimento que seja só de quem conhece. Há também conhecimento de quem está, de quem permanece, de quem cisca no mesmo lugar até que o lugar fale.

 

E o lugar fala. Por meio de Margareth, que vê chegada. De Josefina, que lembra migalha. De Clotilde, que para de bicar quando silêncio é necessário.

 

Fala, e o Conselho ouve, e comenta, e sabe sem que ninguém lhes tenha pedido para saber, sem que ninguém possa pedir para esquecer.

 

"No Solar, sabedoria não é só de quem lê, quem escreve, quem guarda segredo de gato. Sabedoria é também de quem cisca, de quem poe, de quem está sem promessa de grandeza. O Conselho das Galinhas é prova de que nove vozes que comentam cotidiano cobrem tudo que importa e que importância, sendo Solar, é feita de visto, de lembrado, de não esquecido."

 

 

 

 

---

 

No Solar, acreditamos que galinhas são sábias. Não porque dizemos, porque elas estão, e em estar, em ciscar, em comentar sem parar, criam tecido de conhecimento que não precisa de aprovação para ser real. O Conselho das Galinhas não manda. Apenas sabe. E saber, no Solar, é poder que não precisa de força. Apenas de permanência, de olho atento, de não ter pressa de ser outra coisa.

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Saltitão Crossfitônio

 

Instrutor do Centro de Condicionamento Físico das Margaridas

 

Há no Solar um lugar onde ninguém vai para ficar mais forte.

 

E justamente por isso, todos saem mais fortes.

 

Não há espelhos. Não há competição. Não há medalhas penduradas em paredes. Não há quadro de vencedores.

 

Há trilhas.

 

Há respiração.

 

Há água fresca.

 

Há margaridas crescendo entre os caminhos.

 

E há Saltitão Crossfitônio.

 

Um coelho que acredita que movimento é uma forma de gratidão.

 

 

---

 

Quem é Saltitão

 

Saltitão não nasceu atleta.

 

Nasceu inquieto.

 

Enquanto outros coelhos cochilavam depois do almoço, Saltitão queria descobrir o que havia depois da cerca.

 

Depois da cerca havia outra cerca.

 

Depois da outra cerca havia um pomar.

 

Depois do pomar havia um riacho.

 

Depois do riacho havia uma colina.

 

E depois da colina...

 

bem...

 

havia mais coisas para descobrir.

 

Foi assim que aprendeu uma verdade:

 

"O corpo foi feito para nos levar até as histórias."

 

 

 

Desde então, nunca mais parou de caminhar.

 

Nem de convidar os outros para caminhar junto.

 

 

---

 

O Centro de Condicionamento Físico das Margaridas

 

Fica numa parte ensolarada do jardim.

 

Não parece academia.

 

Parece um jardim que decidiu ajudar.

 

Há troncos para equilibrar.

 

Pedras para subir.

 

Trilhas para percorrer.

 

Cordas penduradas em árvores.

 

Bancos para descansar.

 

E placas escritas à mão por Saltitão.

 

Uma delas diz:

 

"Respire antes de decidir que não consegue."

 

 

 

Outra:

 

"Água primeiro. Drama depois."

 

 

 

E a favorita de todos:

 

"Descansar também conta."

 

 

 

 

---

 

O que ele faz

 

Saltitão organiza atividades para quem deseja cuidar do corpo sem esquecer do coração.

 

Ele conduz:

 

Os Alongamentos das Cenouras

 

A Corrida ao Redor do Pomar

 

A Caminhada Consciente com Don Caracol

 

A Respiração das Nuvens de Primavera

 

O Arrasto Cerimonial de Galhos

 

As Manhãs de Movimento Gentil

 

 

Tudo com a mesma filosofia:

 

"Cada corpo tem seu próprio ritmo."

 

 

 

Nunca grita.

 

Nunca exige.

 

Nunca compara.

 

Apenas incentiva.

 

 

---

 

O que ele acredita

 

Saltitão acredita que muitas coisas melhoram quando caminhamos.

 

Não porque os problemas desaparecem.

 

Mas porque nós mudamos de lugar enquanto pensamos neles.

 

Ele costuma dizer:

 

"Algumas emoções precisam de conversa. Outras precisam de uma volta no jardim."

 

 

 

Também acredita que:

 

água é importante;

 

cochilos são importantes;

 

respirar é importante;

 

rir durante o exercício é importante.

 

 

E que qualquer plano que não inclua uma pausa para chá precisa ser reconsiderado.

 

 

---

 

Seus alunos

 

Dona Amora frequenta as aulas de respiração.

 

Não porque precise.

 

Mas porque gosta da companhia.

 

Senhor Camomilo participa dos alongamentos matinais.

 

Sempre chega quinze minutos antes.

 

Trevoso tentou participar uma vez.

 

Atravessou todos os equipamentos por acidente.

 

Saltitão registrou a atividade como:

 

"Treino avançado de atravessamento de obstáculos."

 

 

 

Don Caracol é responsável pela Caminhada Consciente.

 

As caminhadas são tão lentas que algumas margaridas florescem antes de terminarem.

 

Saltitão considera isso um sucesso.

 

 

---

 

A relação com Madame Hey

 

Madame Hey raramente participa das atividades.

 

Mas passa para observar.

 

Às vezes senta num banco.

 

Às vezes caminha alguns metros.

 

Às vezes apenas escuta os risos.

 

E isso basta.

 

Saltitão sabe que nem todo movimento é visível.

 

Alguns acontecem por dentro.

 

 

---

 

O que ele é

 

Saltitão não é treinador.

 

Não exatamente.

 

Não mede desempenho.

 

Não distribui notas.

 

Não transforma ninguém.

 

Ele apenas lembra algo que o Solar às vezes esquece:

 

Que uma casa também vive através dos passos de quem a percorre.

 

Que pernas cansadas contam histórias.

 

Que pulmões cheios de ar são pequenas celebrações.

 

E que continuar em frente, mesmo devagar, ainda é continuar.

 

"Você não precisa correr mais rápido. Precisa apenas continuar saltando."

 

 

 

 

---

 

Hoje

 

Saltitão continua no Centro de Condicionamento Físico das Margaridas.

 

Organizando alongamentos.

 

Distribuindo garrafas de água.

 

Anotando atividades em pranchetas.

 

Incentivando caminhadas.

 

E comemorando cada pequena conquista como se fosse uma grande aventura.

 

Porque, para ele, é.

 

"Força não é sobre levantar peso. É sobre continuar florescendo."

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Há no Solar quem cuide das flores.

 

Há quem cuide das colheitas.

 

Há quem cuide das histórias.

 

E há quem cuide daquilo que existe antes de tudo isso.

 

As sementes.

 

Esse é Girassoldo Prosperino.

 

Não chegou ao Solar trazendo riquezas.

 

Chegou trazendo um punhado de sementes guardadas num bolso.

 

E isso, para ele, sempre foi a mesma coisa.

 

 

---

 

Dizem que ele apareceu numa manhã de primavera.

 

Sentado na varanda.

 

Esperando.

 

Não por alguém.

 

Por uma estação.

 

Porque Girassoldo acredita que algumas coisas não devem ser apressadas.

 

Quando Madame Hey perguntou o que ele fazia, ele respondeu:

 

— Cultivo futuros.

 

E continuou tomando chá.

 

Desde então, ninguém conseguiu descobrir se ele estava brincando.

 

 

---

 

Aparência

 

É um hamster dourado e rechonchudo.

 

Tem óculos redondos.

 

Colete amarelo.

 

Relógio de bolso.

 

E um chapéu de palha decorado com pequenos girassóis.

 

Carrega sempre um caderno.

 

O famoso:

 

Caderno das Intenções.

 

Mas ele não anota desejos.

 

Anota ações.

 

Porque, segundo Girassoldo:

 

"O universo gosta de sonhos.

 

Mas confia em quem aparece para trabalhar."

 

 

 

 

---

 

O que faz

 

Girassoldo planta.

 

Não apenas flores.

 

Planta coragem.

 

Planta persistência.

 

Planta ideias.

 

Planta começos.

 

Quando algum morador decide iniciar algo novo, ele oferece uma semente.

 

Às vezes é um girassol.

 

Às vezes uma margarida.

 

Às vezes algo que ninguém reconhece.

 

Porque nem toda semente cresce em jardim.

 

Algumas crescem dentro das pessoas.

 

 

---

 

Existe uma coleção inteira guardada por ele.

 

Frascos etiquetados.

 

Cada um contendo sementes especiais.

 

Coragem.

 

Paciência.

 

Recomeço.

 

Amizade.

 

Perdão.

 

Sonhos.

 

Ninguém sabe se realmente são diferentes.

 

Mas quem recebe acredita que são.

 

E isso parece funcionar.

 

 

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A filosofia de Girassoldo

 

Ele não gosta de promessas rápidas.

 

Nem de atalhos.

 

Nem de fórmulas mágicas.

 

Quando alguém diz:

 

— Quero colher.

 

Ele pergunta:

 

— E o que você plantou?

 

Quando alguém diz:

 

— Quero abundância.

 

Ele pergunta:

 

— E o que você está cuidando?

 

Quando alguém diz:

 

— Quero que aconteça.

 

Ele responde:

 

— Então apareça todos os dias.

 

 

---

 

Sua frase mais famosa está pendurada em sua casa:

 

"Manifestar não substitui plantar."

 

 

 

É considerada uma das frases mais repetidas do Solar.

 

E também uma das mais difíceis de praticar.

 

 

---

 

A Casa dos Girassóis

 

Mora numa pequena casa dourada.

 

Sempre iluminada.

 

Mesmo em dias nublados.

 

Mesmo durante o inverno.

 

Mesmo quando ninguém lembra de acender as luzes.

 

A casa é cercada por girassóis.

 

Mas existe um detalhe curioso.

 

Todos apontam para direções diferentes.

 

Quando perguntam por quê, ele responde:

 

— Nem todo mundo floresce olhando para o mesmo sol.

 

 

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As amizades

 

Dona Quitanda Margarida

 

Os dois conversam durante horas.

 

Ela fala das colheitas.

 

Ele fala das sementes.

 

Ela lembra que fartura precisa circular.

 

Ele lembra que fartura precisa começar.

 

São praticamente duas páginas do mesmo livro.

 

 

---

 

Senhor Camomilo

 

Compartilham a mesma crença:

 

pequenas rotinas mudam destinos.

 

Enquanto Camomilo cuida dos filhotes do presente, Girassoldo costuma pensar nos adultos do futuro.

 

 

---

 

Coach Saltitão Crossfitônio

 

Saltitão fala sobre movimento.

 

Girassoldo fala sobre constância.

 

Os dois vivem discutindo qual é mais importante.

 

Nunca chegam a uma conclusão.

 

E ambos consideram isso uma vitória.

 

 

---

 

O que ele acredita

 

Girassoldo acredita que prosperidade não é riqueza.

 

É crescimento.

 

Não é ter tudo.

 

É cuidar bem do que já existe.

 

Não é correr.

 

É continuar.

 

Não é sorte.

 

É presença repetida.

 

 

---

 

Hoje

 

Ele continua sentado em sua varanda.

 

Continua anotando intenções.

 

Continua distribuindo sementes.

 

Continua esperando estações.

 

E continua acreditando que quase tudo pode florescer.

 

Desde que alguém esteja disposto a regar.

 

Às vezes.

 

Devagar.

 

Todos os dias.

 

 

---

 

"O Senhor Girassoldo Prosperino não ensina como ficar rico.

 

Ensina como cultivar.

 

Porque riqueza pode ir embora.

 

Mas quem aprende a cultivar sempre encontra uma nova primavera."

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Há no Solar quem plante.

 

Há quem cuide.

 

Há quem espere.

 

E há quem receba.

 

Essa é Dona Quitanda Margarida.

 

Ninguém sabe exatamente quando chegou.

 

Alguns dizem que ela apareceu junto da primeira cesta de maçãs.

 

Outros juram que ela já estava ali quando a casa ainda aprendia seus próprios corredores.

 

O fato é que, desde que alguém se lembra, existe uma porquinha de avental florido esperando atrás do balcão da Quitanda das Margaridas.

 

Esperando.

 

Recebendo.

 

Organizando.

 

Distribuindo.

 

E colocando uma coisinha a mais em cada sacola.

 

Porque, para Dona Quitanda, abundância não é quantidade.

 

É carinho.

 

---

 

O que ela faz

 

Recebe todas as colheitas do Solar.

Frutas.

Verduras.

Ervas.

Flores.

Mel.

Compotas.

Pães.

Cogumelos.

Sementes.

 

E até ingredientes que ninguém sabe exatamente de onde vieram.

 

Ela anota tudo.

 

Organiza tudo.

 

Limpa tudo.

 

E encontra lugar para tudo.

 

Mas sua verdadeira especialidade não é guardar.

 

É repartir.

 

Quando alguém entra na quitanda procurando apenas maçãs, quase sempre sai com:

duas maçãs,

 

uma margarida,

 

um biscoito,

 

um bilhete,

 

e um conselho que não sabia que precisava ouvir.

----

 

Ela acredita que

 

Mesa farta não é aquela que tem muito.

 

É aquela que tem espaço para mais um.

 

Nada estraga quando é dividido com amor.

 

Toda colheita é uma história.

 

E toda história merece ser compartilhada.

 

 

---

Sua aparência

 

Pequena.

 

Redonda.

 

Rosada.

 

Com bochechas que parecem sempre coradas.

 

Usa vestidos floridos.

 

Um avental cheio de bolsos.

 

Um chapéu de palha decorado com margaridas.

 

E carrega uma cesta de vime praticamente o tempo todo.

 

Ninguém nunca a viu sem alguma fruta.

 

Nem sem algum plano para alimentar alguém.

 

---

Seus costumes

 

Sempre coloca algo extra na sacola de cada visitante.

 

Às vezes uma flor.

 

Às vezes um biscoito.

 

Às vezes uma sementinha.

 

Às vezes um bilhete escrito à mão.

 

Ela diz:

 

"Nunca se sabe qual presente alguém estava precisando encontrar."

 

Também conversa com os alimentos.

 

Pergunta se as maçãs estão felizes.

 

Se os tomates viajaram bem.

 

E se as cenouras gostariam de ficar perto das ervas aromáticas.

 

Curiosamente...

 

parece funcionar.

 

Seus amigos

Senhor Girassoldo Prosperino

Conversam sobre abundância.

 

Girassoldo fala das sementes.

Quitanda fala das colheitas.

Um planta esperança.

A outra distribui resultado.

 

Senhor Camomilo

É quem leva frutas para o Berçário do Solar.

Os dois acreditam que cuidado e alimento são quase a mesma coisa.

 

Conselho das Galinhas

Frequentadoras oficiais da quitanda.

Entram sem pedir licença.

Comentam tudo.

Experimentam tudo.

E quase nunca compram nada.

 

Dona Quitanda nunca reclama.

Sua frase favorita

"Leve mais uma."

"Essa estava querendo companhia."

O que ela ensina

Que fartura não é ter.

É circular.

Que comida alimenta o corpo.

Mas compartilhar alimenta a casa.

E que nenhuma colheita está completa enquanto não encontra alguém para receber.

 

 

Hoje

Dona Quitanda continua atrás do balcão.

Continua enchendo cestas.

Continua oferecendo maçãs, flores e biscoitos.

Continua acreditando que o mundo melhora um pouquinho quando alguém leva algo para casa.

Mesmo que seja apenas uma margarida.

Ou um sorriso.

Ou uma cenoura que não queria ficar sozinha.

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A Ovelha das Festas

 

Organizadora de Comemorações do Solar, Dama das Listas e Guardiã dos Balões que Escapam

 

 

 

"A festa começa quando eu chego... e termina quando eu achar meus óculos!"

 

 

 

Há no Solar uma criatura que não caminha, ela corre. Não por pressa, mas por entusiasmo. Não por urgência, mas porque, entre uma lista e outra, esqueceu para onde ia e decidiu ir para todos os lados ao mesmo tempo.

 

Seu nome é Elvira.

 

Desde que chegou ao Solar, tornou-se organizadora oficial de festas, dama das comemorações, guardiã das listas de afazeres e mestra das ocasiões que não saem como planejado, mas que, por isso mesmo, ficam inesquecíveis.

 

Ela chegou para ficar.

 

E em ficar, transformou cada evento em movimento, cada prato em memória que ainda está sendo servida, cada balão em história que ainda não pousou.

 

"Organizar festas não é dom. É disposição para o caos bem-intencionado."

 

 

✦ OS BALÕES QUE ESCAPAM ✦

 

São sua assinatura.

 

Impecavelmente enfeitados, com laço de seda que só ela sabe fazer e desfazer. Mas dentro de cada balão há algo que ninguém espera: uma lista que ela escreveu e perdeu, um convite para a festa errada, ou simplesmente o desejo de ir mais longe do que Elvira conseguiu.

 

Balão que escapa não é acidente. É narrativa. É lembrança que encontra seu próprio caminho.

 

História que não termina, ou termina de outro jeito, ou começa no meio e deixa o resto para a imaginação.

 

Madame Hey ri.

 

Às vezes ri alto, às vezes guarda para a próxima festa, quando outro balão trará outra lista, e as histórias conversarão entre si.

 

"O balão de Elvira não é decoração. É publicação: edição única, tiragem de um, leitora de um."

 

✦ LISTAS E CONVERSAS ✦

 

Sir Ratatónio é seu parceiro de chá e de organização.

 

Tomam chá no jardim, em silêncio possível, para conversar sobre coisas que o Solar nem sempre compreende:

 

- Estética do esquecimento: esquecer a lista é falha ou arte?

- Cerimônia do inútil: por que Ratatónio segura monóculo que não existe?

- Ironia como proteção: o balão é ironia porque sobe, ou porque tem medo de ser visto?

 

Não é social.

 

É conspiração de elegância: dois que sabem por quê, e decidem, simplesmente, ser bons anfitriões.

 

 

✦ FLORES DE PASSAGEM ✦

 

Toda manhã que julga especial, Elvira entrega flores à Madame Hey.

 

Não são margaridas, são flores de passagem: orquídeas, lírios, coisas belas porque não ficam.

 

Ela aceita não como quem recebe presente, mas como quem reconhece performance.

 

Porque Elvira dá para ser vista dando, para completar personagem, para ser, de manhã, o que de tarde, já não é.

 

E em completar personagem, toca.

 

"Flores que não duram, beleza que não prende, momento que fica."

 

 

✦ DEBATES DE FILOSOFIA ✦

 

Adoram. Debatem com paixão elegante:

 

- Utilidade da beleza: para que serve enfeite que não produz?

- Ética do balão: é mentida dar lista em ovo de chocolate?

- Tempo da ovelha: por que Elvira vem no outono, não na primavera, quando coelhos deveriam vir?

 

Elvira defende:

- Dever é palavra de quem não tem elegância.

- Elegância é palavra de quem tem medo de ser vista sem.

 

Madame Hey contra-ataca:

- Lista é palavra de quem tem medo de esquecer.

- Esquecer é palavra de quem já viveu demais.

 

Elvira, derrotada por um instante, sorri. Sorriso de ovelha, que é dente que não mostra ameaça, apenas prazer.

 

"Debate com Elvira não busca verdade. Busca frase: algo que possa ser repetido, mais tarde, em tom de quem esteve presente na elegância."

 

 

✦ A ORGANIZADORA DO SOLAR ✦

 

Elvira é responsável por:

 

- Banquetes sazonais

- Receitas cerimoniais

- Chás especiais e infusões

- Sobremesas que contam histórias

- Festivais do Solar

- Tradições da Páscoa (em colaboração com Coelho Oscar)

- Acolhimento à mesa

 

Organiza com técnica, com imaginação e com teatralidade.

 

Cada prato é um capítulo.

 

Cada refeição é um evento.

 

Cada detalhe é uma forma de amor.

 

 

✦ RELAÇÕES NO SOLAR ✦

 

• COM MADAME HEY

Parceira, amizade e admiração.

Ela oferece palco, Elvira oferece encanto. Ela constrói o Solar, Elvira a celebra.

Juntas, transformam dias comuns em ocasiões que merecem lista.

 

• COM SIR RATATÓNIO

Igualdade rara.

Dois que amam cerimônia, ironia e conversas que poucos compreendem.

Amigos de chá, de debate e de elegância inútil.

 

• COM COELHO OSCAR

Primavera e Páscoa.

Ela organiza, ele cozinha.

Ela prepara para ir, ele chega para ficar.

Respeitam-se e se completam.

 

• COM JUNINHO FAROFA

Natal e festas juninas.

Juninho traz o caos, Elvira traz a lista.

Juninho esquece o plano, Elvira improvisa.

Ambos sabem que tudo se tempera com tempo e com riso.

 

• COM TODOS

Com todos, Elvira compartilha o que sabe fazer melhor: receber, servir, contar histórias e transformar qualquer ocasião em algo que vale a pena ser lembrado.

 

✦ SEUS PRINCÍPIOS ✦

 

- Elegância não é vaidade. É cuidado.

- Organizar é escrever com movimento.

- Servir é encantar.

- Toda refeição merece cerimônia.

- Ironia é tempero.

- Chocolate é filosofia.

- Lista é alimento da alma.

- O Solar é palco, casa e coração.

 

✦ NA COZINHA DA ELVIRA ✦

 

Ingredientes secretos:

- Uma pitada de ironia

- Duas xícaras de elegância

- Três colheres de literatura

- Tempo a gosto

- Chocolate sempre

- Amor a servir

 

 

✦ ELVIRA ✦

 

Não é só organizadora.

Não é só escritora de listas.

Não é só dama de cerimônias.

 

É tudo isso misturado, mexido devagar, com chocolate, com chá, com livro, com amor.

 

"No Solar, acreditamos que festa não é apenas celebração. É também literatura: o balão que é lista, a visita que é performance, elegância que é forma de amor. Elvira, com seu laço de seda, seu chá com Ratatónio, seus debates que não terminam, suas listas que só existem ali, é essa crença feita ovelha. Feita ocasião. Feita saudade que aguarda, elegantemente, próximo evento."

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Há quem colecione livros.

 

Há quem colecione sementes.

 

Há quem colecione receitas.

 

E há Signore Bellaroma.

 

Que coleciona suspiros.

 

Não os guarda em caixas.

 

Nem em gavetas.

 

Nem em frascos comuns.

 

Guarda em perfumes.

 

Porque Bellaroma acredita que toda memória possui um cheiro.

 

E que, às vezes, é o cheiro que se lembra de nós primeiro.

 

 

---

 

Quem é ele

 

Ninguém sabe exatamente de onde veio.

 

Ele diz que nasceu na Itália.

 

Mas já contou versões diferentes pelo menos vinte e três vezes.

 

Em uma delas, nasceu dentro de um campo de lavandas.

 

Em outra, foi encontrado dentro de uma caixa de cartas de amor.

 

Em uma terceira, surgiu de um perfume esquecido em cima de um piano.

 

Talvez todas sejam verdade.

 

Talvez nenhuma seja.

 

O próprio Bellaroma parece gostar da dúvida.

 

 

---

 

Sua aparência

 

Sempre impecável.

 

Boina vermelha.

 

Lenço de seda.

 

Colete elegante.

 

Relógio de bolso.

 

Bigode cuidadosamente enrolado.

 

E um perfume diferente a cada dia.

 

Às vezes cheira a rosas.

 

Às vezes a café.

 

Às vezes a chuva.

 

Às vezes a algo impossível de explicar.

 

Algo que faz alguém dizer:

 

"Isso me lembra alguma coisa..."

 

 

 

Mesmo sem saber o quê.

 

 

---

 

O que ele faz

 

Cria perfumes.

 

Mas não perfumes comuns.

 

Cria perfumes para momentos.

 

Para sentimentos.

 

Para memórias.

 

Para saudades.

 

Na Perfumaria das Margaridas existem frascos com nomes como:

 

Primeira Chuva de Primavera

 

Carta Nunca Enviada

 

Tarde na Varanda

 

Página Esquecida no Livro

 

Último Chá Antes do Inverno

 

Abraço Que Ficou

 

 

E Bellaroma consegue explicar cada um deles durante horas.

 

Mesmo quando ninguém perguntou.

 

 

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Seu talento especial

 

Ele consegue perceber cheiros que ninguém mais percebe.

 

O cheiro de uma despedida.

 

O cheiro de uma promessa.

 

O cheiro de uma casa feliz.

 

O cheiro de alguém que acabou de reencontrar esperança.

 

Ele diz:

 

"O nariz é apenas a porta.

 

Quem sente de verdade é o coração."

 

 

 

 

---

 

Seus amigos

 

Senhor Girassoldo Prosperino

 

Girassoldo fala de sementes.

 

Bellaroma fala de flores.

 

Os dois passam tardes inteiras discutindo qual delas veio primeiro.

 

Nenhum convenceu o outro.

 

 

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Dona Quitanda Margarida

 

Fornece frutas, ervas e flores para suas criações.

 

Em troca recebe perfumes sazonais.

 

A amizade deles faz o Solar cheirar especialmente bem.

 

 

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Seu Zecatixo

 

Guardião dos aromas do jardim.

 

Os dois frequentemente trocam ervas raras.

 

Ninguém sabe exatamente o que conversam.

 

Mas geralmente termina com ambos muito satisfeitos.

 

 

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Morcélio da Silva

 

Parceiro improvável.

 

Compartilham gosto por frascos antigos.

 

Objetos estranhos.

 

E coisas que os outros consideram sem valor.

 

 

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O que ele acredita

 

Que nenhuma lembrança desaparece completamente.

 

Que gentileza deixa perfume.

 

Que saudade é uma forma elegante de amor.

 

E que uma casa sem cheiro é uma história sem voz.

 

 

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Seu lema

 

"Toda casa merece um aroma que diga:

 

Bem-vindo de volta."

 

 

 

 

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Hoje

 

Signore Bellaroma continua em sua perfumaria.

 

Misturando pétalas.

 

Anotando fórmulas.

 

Flertando discretamente com praticamente tudo que respira.

 

Incluindo flores.

 

Incluindo borboletas.

 

Incluindo a lua em certas noites.

 

E, de vez em quando, quando ninguém está olhando, cria um perfume novo.

 

Um perfume sem nome.

 

Um perfume que guarda um momento tão bonito que ele ainda não encontrou palavras para descrevê-lo.

 

Então guarda o frasco na prateleira mais alta.

 

Esperando.

 

Porque Bellaroma sabe que algumas memórias precisam amadurecer antes de ganhar nome.

 

 

"Perfume é saudade que aprendeu a voar." — Signore Bellaroma.

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Há moradores no Solar que só existem em certos ângulos da luz.

Don Caracol é um deles.

Não porque seja invisível.

Porque é discreto, uma qualidade esquecida nos dias em que tudo grita para ser notado. Don Caracol não grita.

Nem sussurra.

Apenas deixa rastro, e deixa que o rastro fale por ele.

Dizem que ele apareceu na madrugada em que a primeira parede foi levantada.

Não quando a pedra foi colocada, horas depois, quando o cimento ainda gemia, ainda se ajustava, ainda lembrava de ser pó.

Don Caracol deslizou por uma fresta que não deveria existir, do lado de fora para dentro, sem pressa, sem permissão, sem cerimônia.

Apenas curiosidade.

Desde então, ele habita os intervalos.

O espaço entre o muro e a hera.

A sombra que só existe às cinco da tarde.

A umidade que permanece depois que a chuva passou.

Don Caracol não tem pressa.

Não porque é lento, porque sabe.

O jardim só se revela a quem não rouba seu tempo.

Cada folha, cada curva, cada canto onde a luz da manhã ainda não chegou, tudo isso merece atenção.

E atenção, no caso de Don Caracol, é sinônimo de lentidão absoluta.

A Madame Hey foi quem primeiro notou o bigode.

Olhou de lado, naquela hora em que a luz não sabe se é noite ou dia, o crepúsculo de Don Caracol e jurou que viu bigode fino brilhando no musgo.

Fino, elegante, curvado para cima em pontas que não existiam na natureza.

Mas quando se aproximou, era apenas o rastro de baba, já secando, já perdendo a forma, já se tornando apenas lembrança de bigode.

Ela sorriu.

Entendeu que no Solar, algumas coisas só existem na percepção.

Não no objeto.

Don Caracol não explica. Nunca explicou.

O que ele faz, em silêncio, durante as madrugadas em que todos dormem, até Rudolph, que vê tudo, fecha os olhos, é mapear.

Não com papel, não com bússola.

Com rastro.

Cada noite, ele escolhe um caminho diferente: da cozinha ao pomar, do quarto de hóspedes ao poço, da cerca ao pé daquela árvore que a Madame Hey ainda não nomeou. E deixa para trás uma linha que some com o sol.

Mas se você olhar com calma, na primeira luz, aquela luz ainda verá: um brilho, uma curva, uma sugestão de que alguém passou e sabia exatamente para onde ia.

A concha de Don Caracol muda.

A Madame Hey notou isso também, embora nunca tenha visto a mudança acontecer, apenas encontrado ele diferente, em estações diferentes.

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Captura de tela 2026-08-24 183828.png

"Dizem que se você segurar Don Caracol no inverno, sentirá frio.

No verão, calor.

Mas ele sempre está na mesma temperatura.

É o jardim que você sente, não ele."

 

 

Sir Ratatônio o encontra às vezes, nas buscas noturnas.

Não o monta, seria absurdo, seria indecoroso, mas consulta. Ou tenta.

Don Caracol, quando questionado, continua seu rastro.

A resposta, se houver, virá na forma de curva: à esquerda, à direita, ou aquele loop perfeito que significa espere .

O rato aprendeu a ler esses sinais.

Nicolau, que o carrega, não precisa, ele e Don Caracol falam a mesma língua de tempo geológico, embora em escalas diferentes.

Quando os três se encontram em um corredor, a noite inteira pode passar em silêncio.

E os três consideram isso conversa suficiente.

Don Caracol não rouba.

Não guarda.

Não devolve.

Apenas traça, e deixa que o traçado se torne memória, ou mapa, ou nada.

Depende de quem olha, e quando, e com quanta paciência.

A Madame Hey, certa vez, seguiu um de seus rastros até o fim.

Levou duas horas, ou duas noites, no tempo de Don Caracol, é difícil saber.

Chegou a um muro onde não deveria haver nada.

Mas ali, na base, crescendo exatamente onde a baba secara: uma margarida.

Não plantada por Tobias, que esquece onde semeia.

Plantada por atenção.

Por alguém que passou, viu, e deixou que o lugar se lembrasse de si mesmo.

Ela nunca mais tentou segui-lo.

Algumas coisas no Solar devem permanecer traçadas, não encontradas.

 

"Don Caracol não tem pressa. Não porque é lento.

Porque sabe que o jardim só se revela a quem não rouba seu tempo."

--

No Solar, acreditamos que cada casa precisa de alguém que veja o que ainda não existe. E que alguns caminhos, se traçados com baba suficiente, levam a lugares que só serão construídos no futuro, mas que já podem ser sonhados, na hora certa, na luz de lado, por quem sabe esperar.

No Solar, acreditamos que mapas não são para serem lidos. São para serem sentidos, na umidade da madrugada, quando o bigode brilha e a concha sussurra o que ainda não aconteceu.

Muito antes de existirem os jardins, os caminhos de pedra e as lanternas iluminando as tardes de outono, dizem que o Solar já guardava um antigo mistério.

Uma presença silenciosa.

Antiga.

Paciente.

Ninguém sabe ao certo quando ela surgiu. Alguns acreditam que nasceu da própria terra. Outros dizem que ela foi colocada ali para proteger o Solar antes mesmo de a casa existir.

Todos, porém, conhecem sua forma.

A Abóbora Guardiã.

Ela não cresce como as outras abóboras.

Não brota entre folhas ou trepadeiras.

Ela simplesmente aparece.

Todos os anos, quando o verão se despede e o outono começa a pintar o jardim com seus tons dourados, a Abóbora Guardiã surge entre os canteiros, redonda, serena e iluminada pela luz suave da estação.

Ninguém a planta.

Ninguém a colhe.

Porque ela não pertence a ninguém.

Ela pertence ao próprio Solar.

Dizem que a Abóbora Guardiã guarda a memória da casa.

As estações que já passaram, os invernos silenciosos, as primaveras cheias de vida e os verões iluminados pelo sol. De alguma forma, tudo o que acontece no Solar parece passar por ela.

Alguns moradores do jardim costumam visitá-la.

O Coelho sempre aparece nas primeiras noites de outono, como se escutasse um segredo que só ele consegue ouvir.

A Raposa passa de vez em quando, observando tudo em silêncio.

E quando o vento balança as folhas secas, há quem jure que a Abóbora brilha bem de leve, como uma pequena lanterna viva no meio do jardim.

Talvez ela só queira lembrar uma verdade muito simples:

Tudo tem o seu tempo.

Tudo volta a florescer.

E cada estação prepara o caminho para a próxima.

Ninguém conhece todos os segredos da Abóbora Guardiã.

Mas existe uma certeza compartilhada por todos os moradores do Solar:

Enquanto ela voltar a aparecer a cada outono, a casa sempre encontrará o caminho de volta para a luz.

 

No Solar das Margaridas, cada criatura, cada semente e cada estação guardam um pedacinho da história dessa casa encantada.

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