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Dona Amora

  • 6 de jun.
  • 3 min de leitura



Há moradores no Solar que cultivam jardins.


Há moradores que guardam histórias.


Há moradores que recolhem memórias perdidas.


E há Dona Amora.


Ninguém sabe exatamente quando ela chegou.


Talvez sempre tenha estado ali.


Talvez algumas presenças sejam tão naturais que a casa esqueça de registrá-las.


Capivara de passos lentos, voz baixa e paciência inesgotável, Dona Amora é responsável por uma tarefa que não aparece em listas de afazeres.


Ela cuida dos corações cansados.


Não apenas dos filhotes.


De todos.


Porque o Solar aprendeu, há muito tempo, que crescer não impede ninguém de precisar de colo.


---


O Que Ela Faz


Se você perguntar a Dona Amora qual é seu trabalho, ela provavelmente ficará pensativa por alguns segundos.


Depois responderá:


— Fico perto.


E, curiosamente, é exatamente isso que ela faz.


Fica perto.


Quando alguém está assustado.


Quando alguém está doente.


Quando alguém perdeu alguma coisa importante.


Quando a tristeza aparece sem explicação.


Quando a saudade resolve visitar.


Ela não oferece soluções.


Oferece presença.


No Solar, isso costuma funcionar melhor.


---


O Mingau da Coragem


Dona Amora prepara mingaus.


Não receitas.


Mingaus.


Existe diferença.


Receitas seguem medidas.


Mingaus seguem necessidades.


Há mingau para dias chuvosos.


Mingau para noites difíceis.


Mingau para quem voltou de uma viagem longa.


Mingau para quem está aprendendo algo novo e tem medo de errar.


Mingau para quem não sabe explicar o que sente.


Ela nunca anota as quantidades.


Nunca usa relógio.


E, de alguma forma, sempre acerta.


Oscar tentou descobrir o segredo.


Desistiu depois da terceira tigela.


---


A Arte de Ficar


Há quem confunda cuidado com ação.


Dona Amora não.


Ela sabe que algumas dores não precisam ser resolvidas imediatamente.


Precisam apenas deixar de ser enfrentadas sozinhas.


Por isso ela senta.


Espera.


Escuta.


Permanece.


Enquanto o mundo pede pressa, Dona Amora oferece tempo.


Enquanto o mundo pede respostas, Dona Amora oferece companhia.


Enquanto o mundo pede força, Dona Amora oferece descanso.


---


O Berçário


Embora seja conhecida em todo o Solar, é no Berçário que sua presença se torna mais evidente.


Filhotes assustados costumam encontrá-la primeiro.


Dormem encostados nela.


Escondem-se em suas mantas.


Seguram suas patas.


Escutam suas histórias.


E descobrem algo importante:


não precisam ser corajosos o tempo todo.


Às vezes basta serem pequenos.


Às vezes basta serem cuidados.


---


As Histórias


Toda noite, Dona Amora conta histórias.


Não histórias grandiosas.


Não histórias heroicas.


Histórias sobre coisas simples.


Uma margarida que floresceu tarde.


Uma chaleira que cantava desafinada.


Um passarinho que precisou aprender a confiar no vento.


Uma raposa que descobriu que deixar ir também é forma de amor.


As histórias parecem pequenas.


Mas costumam permanecer.


Meses depois, alguém ainda se lembra de uma frase.


Anos depois, alguém ainda se lembra de uma sensação.


É assim que as histórias de Dona Amora funcionam.


Elas não ocupam espaço.


Criam abrigo.


---


O Que Ela Acredita


Dona Amora acredita em poucas coisas.


Mas acredita profundamente.


Acredita que ninguém deveria enfrentar o medo sozinho.


Acredita que todo filhote merece uma boa primeira história.


Acredita que descanso não é preguiça.


Acredita que colo também é remédio.


E acredita que gentileza raramente faz barulho.


Mas quase sempre transforma alguma coisa.


---


Hoje


Continua no Solar.


Sentada perto da lareira.


Preparando mingaus.


Contando histórias.


Oferecendo cobertores.


Esperando que alguém precise conversar.


Ou que alguém precise apenas ficar em silêncio.


Às vezes há filhotes ao seu redor.


Às vezes adultos.


Às vezes ninguém.


Isso nunca parece incomodá-la.


Porque Dona Amora compreende algo que poucos compreendem:


cuidar não é fazer.


É estar disponível.


---


"Dona Amora não conserta corações.


Ela fica por perto até que eles descubram como voltar a bater sem medo."


---


No Solar, acreditamos que algumas pessoas entram em nossa vida para ensinar coragem. Dona Amora ensina outra coisa. Ela ensina que coragem não é ausência de medo. É saber que existe um lugar para voltar quando o medo aparece. E que, às vezes, esse lugar tem cheiro de mingau quente, manta macia e história contada em voz baixa.

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