Melina, a Abelha da Colmeia Interior
- 20 de mar.
- 3 min de leitura
Há no Solar uma colmeia que não fica no jardim.
Fica dentro, onde o que cresce não é flor, é convivência.
Ela não saiu de fora.
Entrou.
E ficando, fez do interior também jardim.
Não de pétalas e pólen, de momento e sentimento.
De Madame Hey que chora sozinha às três da manhã.
De Astolfo que dança reggaeton na poça.
De Sir Ratatônio que ajusta monóculo inexistente e espera que ninguém perceba que espera.
Melina é abelha.
Pequena, amarela, presente, não como intrusa, como moradora que escolheu estar próxima.
Sua colmeia não é grande, não é escondida, não é exatamente visível.
Está sempre: perto de onde Madame Hey está, perto de onde há calor humano, perto de onde algo está sendo sentido.
"Flor é só começo. O que importa é o que acontece depois que alguém sente."
Ela não faz mel comum.
Não mel de flor genérica, de estação, de sabor previsível.
Faz mel de momento:
Momento: Mel que nasce:
Conversa que não queria acabar Mel de voz que persiste
Silêncio de dois que entendem Mel de ausência que é presença
Quase lágrima que não caiu Mel de saudade que ainda não sabe de quê
Riso inesperado na madrugada Mel de alegria que não pediu permissão
A Madame Hey não explica isso aos clientes.
Apenas vende: "Mel do Solar".
E quem prova, às vezes, para.
Fica em silêncio.
E diz, sem saber por quê: "Lembro de alguma coisa".
Não lembram.
Sentem.
E sentir, no Solar, é forma mais honesta de memória.
"Nem tudo que floresce fica. Eu guardo o que não fica."
Os hábitos
Dorama com Madame Hey: Melina assiste.
Sem piscar, abelhas não piscam, é vantagem.
Pousa no braço do sofá, na borda da xícara, no limiar de atenção.
Quando cena muda, vibra, não muito, o suficiente para Madame Hey sentir que não está sozinha na emoção.
Cenas emocionantes: mel mais denso, mais escuro, mais peso de noite.
Cenas leves: mel mais claro, mais fluido, mais riso de manhã.
Finais tristes: mel com gosto de saudade, saudade que não tem objeto, apenas tem intensidade.
Nunca interrompe.
Só participa.
E em participar, registra.
Com Astolfo
Quando ele dança reggaeton de poça, waddle com ritmo, atitude de pato, ela não dança. Não pode, não quer, não precisa.
Ela traduz.
Vibra no ar, captura frequência, transforma.
No dia seguinte, o mel muda.
Ninguém comenta.
Madame Hey prova, acha diferente, não sabe por quê.
Astolfo, na poça, sabe.
Melina, na colmeia, sabe.
E saberem juntos, sem dizer, sem precisar dizer, é amizade de Solar.
"Astolfo é corpo. Melina é sutileza. Juntos, fazem sensibilidade que tem presença."
Com Sir Ratatônio
Ela implica.
Pousa no monóculo inexistente ou onde ele seria, se fosse.
Atravessa caminho de busca cerimoniosa.
Ignora formalidades com indiferença ativa, com pequenez que não reconhece grandeza, com abelha que é mais importante que rato, porque é mais real.
Sir Ratatônio finge que não se importa.
Ajusta monóculo mais vezes do que necessário.
Fala em latim mais baixo, mais para si mesmo.
Espera que ela vá embora.
Espera.
Ela não vai.
Ou vai, e volta.
E em voltar, quebra postura que ele precisa quebrar, mas não consegue sozinho.
"Ratatônio precisa de Melina. Não admite. Precisa."
A regra do mel
Melina não vende mel no dia em que foi feito.
Não por escassez, não por estratégia.
Por respeito ao momento.
"Mel precisa esperar amanhã, para que o momento termine de acontecer."
Conexão com Nicolau (paciência geológica), com Livro que Escreve Devagar (histórias não terminadas), com Vela que Nunca se Apaga (espera que é forma de existir). Melina, sem saber, sem precisar saber, fala língua do Solar.
Hoje
Continua na colmeia interior.
Continua fazendo mel de momento, de emoção, de sentir que não tem nome.
Continua assistindo dorama, vibrando com Astolfo, implicando com Ratatônio.
Madame Hey, certa noite, terminou episódio triste às três da manhã. Chorou, discretamente, sozinha na cozinha.
Melina pousou na xícara de chá já frio.
Não ofereceu conselho, ofereceu presença.
Vibração que dizia: estou aqui, não durma sozinha na tristeza, durma comigo no ar.
No dia seguinte, mel estava mais escuro.
Madame Hey provou no pão, sem comentar. Sabia. E seguiu.
"Melina, a Abelha da Colmeia Interior, é prova de que coração de casa não bate em peito humano. Bate em asa, em mel, em guardar o que não floresceu, mas foi sentido."
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No Solar, acreditamos que mel não é doce apenas. É memória líquida, é emoção que cristalizou, é prova de que convivência, mesmo silenciosa, mesmo pequena, mesmo de abelha que não pisca, é forma mais pura de amor.






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