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Nicolau, o Lento

  • 13 de mar.
  • 3 min de leitura

Há criaturas no Solar que não se movem. Apenas continuam.

Nicolau é uma delas.

Dizem que ele estava lá antes da primeira pedra ser colada.

Que quando a Madame Hey pisou no terreno pela primeira vez, sentiu algo sob a sola do pé, não uma raiz, não uma pedra.

Algo que cedia, mas não se quebrava.

Algo que esperava .

Ela não olhou. Sabia, instintivamente, que algumas presenças se ofendem com olhares diretos.

Nicolau era uma dessas.

Desde então, ele habita os corredores mais longos da casa.

Não os mais bonitos, nem os mais frequentados.

Os mais longos.

Aqueles onde o tempo se estica e a distância entre uma porta e outra parece aumentar conforme você caminha.

Nicolau não anda. Ele persiste.

Cada passo é um evento geológico.

Não porque seja difícil, porque é respeitoso.

O chão merece atenção.

Cada tábua, cada emenda, cada som que a madeira faz ao ceder.

Nicolau ouve tudo. Responde, às vezes, mas suas respostas demoram tanto que a pergunta já foi esquecida quando a resposta chega.

— Nicolau, você viu a chave? — perguntou Sir Ratatônio, certa manhã de outono.

Nicolau já havia respondido. Havia respondido na primavera anterior, quando a chave ainda era minério na terra. Mas a reverberação ainda não alcançara a superfície.

Sir Ratatônio o monta. Não porque precise, o rato é ágil, desliza pelas frestas, desaparece em buracos onde nem luz entra. Mas há protocolos no Solar.

Há formas de se mover que honram o que se busca.

Montado em Nicolau, Sir Ratatônio segura rédeas que não existem com patas que não alcançam.

Ajusta um monóculo que não possui.

Fala em voz baixa, cerimonioso, como quem conduz um carro fúnebre ou uma noiva.

Nicolau não sente diferença.

Ou sente, mas levará o inverno inteiro para processar a sensação.

O que Nicolau sabe e isso só a Madame Hey suspeita, é onde as coisas ficam esquecidas .

Não onde foram perdidas. Onde ficam .

Há diferença. Perder é um ato humano, apressado, cheio de movimento.

Esquecer é lento, natural, como folha que cai. Nicolau entende a gravidade do esquecimento.

Ele próprio é feito de camadas que se depositam, uma sobre a outra, sem urgência.

Quando a Madame Hey esquece onde guardou algo, uma agulha, um retalho, uma ideia, ela não procura. Senta-se no chão do corredor mais longo da casa. Espera.

Eventualmente, Nicolau passa.

Olha, ou a Madame Hey imagina que olha, pois seus olhos são dois pontos antigos demais para expressar algo específico. Continua.

E naquele momento, estranhamente, ela lembra.

Nicolau não devolve o que foi esquecido. Apenas cruza com ele no momento certo.

A memória, como tudo no Solar, é questão de timing. E o tempo de Nicolau é outro.

Há quem diga que Nicolau carrega na carapaça, não visível, não palpável, o mapa de tudo que a casa ainda não construiu.

As paredes que virão.

As portas que ainda não têm fechaduras.

Os cômodos que só existirão quando a Madame Hey finalmente parar de acrescentar e começar a habitar .

Se você tocar sua carapaça no inverno, sentirá frio.

No verão, calor.

Mas Nicolau sempre está à mesma temperatura.

É o Solar que você sente através dele.

O Solar, e o tempo que ele ainda precisa para se tornar real.

Sir Ratatônio, montado nele, procura objetos que já foram perdidos. Nicolau não procura nada. Apenas permanece e na permanência, deixa que as coisas se encontrem com ele.

— Vamos, meu corcel — diz o rato, impaciente, cerimonioso.

Nicolau ouviu. Responderá. E quando responder, será exatamente o que Sir Ratatônio precisava ouvir, embora já não lembre mais a pergunta.

No Solar, alguns moradores não precisam de pressa. Eles são a própria espera, feito de carne ou casco, ou o que quer que Nicolau seja, há tanto tempo que nem ele mesmo lembra se começou como ovo, como pedra, como sonho.

A Madame Hey, certa vez, tentou medir seu passo. Colocou duas velas a três metros de distância. Acendeu a primeira. Nicolau partiu. Quando a primeira vela consumiu-se, ele ainda não alcançara a segunda. Mas havia deixado algo no chão entre elas: um rastro que não era rastro, uma umidade que não era água, uma promessa de que o caminho, se percorrido com paciência suficiente, leva a algum lugar.

Ela nunca repetiu o experimento. Algumas coisas no Solar não devem ser medidas. Apenas acompanhadas, sentadas no chão, esperando.

Nicolau, o Lento, continua.

Não para chegar. Apenas para continuar, que, no fundo, é a única forma honesta de existir em um lugar que ainda está se construindo, tijolo por tijolo, memória por memória, passo por passo que não apressa o futuro, apenas o habita com antecedência.

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No Solar, acreditamos que a memória não mora no cérebro. Mora na paciência. E que alguns caminhos só se revelam a quem está disposto a não chegar tão rápido.



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