Sir Ratatônio
- 12 de mar.
- 3 min de leitura
Há moradores no Solar que não pagam aluguel. Não assinam contratos. Não aparecem nas plantas da casa.
Sir Ratatônio é um deles.
Dizem que ele chegou antes mesmo de haver paredes. Quando o terreno ainda era apenas terra e promessa, alguém, talvez a própria Madame Hey, talvez o tempo, deixou cair uma chave de metal pequena demais para fechaduras humanas. Sir Ratatônio a encontrou. Considerou-se convidado.
Desde então, ele habita os espaços entre os espaços.
Não nos porões, onde os ratos comuns se contentam. Sir Ratatônio prefere a elegância dos corredores, a geometria das molduras, o silêncio das bibliotecas depois que a luz se apaga. E, em certos pontos da casa, nunca os mesmos por muito tempo, aparece uma porta.
Pequena. De madeira escura. Com uma lanterna minúscula que, se você olhar de relance, parece acesa.
Atrás dela, dizem, existe um mundo em escala reduzida: gavetas cheias de botões que saltaram de casacos sem que ninguém percebesse, mapas da casa desenhados com tinta que só aparece à luz de vela, uma biblioteca onde os livros têm o tamanho de selos e as histórias cabem em uma única página.
Sir Ratatônio não rouba. Ele recolhe.
O que os humanos deixam cair, esquecem que possuíam, perdem sem sentir falta, ele guarda.
Com cerimônia.
Com a certeza de que tudo, eventualmente, será reclamado.
Quando algo se perde no Solar, a Madame Hey não procura.
Acende uma vela na sala e espera. Às vezes, na manhã seguinte, a porta de Sir Ratatônio está entreaberta. Às vezes, não.
O rato tem horários que só ele entende.
Montado em Nicolau, o Lento, ele percorre os corredores da casa em busca do que ainda não foi perdido, mas um dia será.
Não por ansiedade.
Por preparação.
Sir Ratatônio acredita que a melhor forma de encontrar algo é saber, com antecedência, onde ele cairá.
Ninguém nunca o viu de perto. Apenas sentiu, às vezes, o farfalhar de uma capa que não existe, o arranhar de garras minúsculas em madeira antiga, o peso de um olhar atento vindo de uma fresta na parede.
E uma vez por ano, na noite em que o outono se despede, uma pequena caixa aparece diante da sua porta.
Dentro: um objeto que ninguém lembrava de ter perdido.
Uma moeda de um país que não existe mais. Um botão de uma camisa que foi rasgada há décadas. Uma chave que, se girada na fechadura certa, abriria uma porta que ainda não foi construída.
Sir Ratatônio não explica. Nunca explicou.
No Solar, alguns moradores não precisam ser compreendidos. Apenas respeitados.
E, de vez em quando, quando algo sumir em sua casa, lembre-se: pode ser que Sir Ratatônio já o tenha encontrado. Pode ser que ele esteja apenas esperando você estar pronto para recebê-lo de volta.
A porta, se você procurar com calma, está sempre ali.
Só não tente abri-la com as mãos.
Ela só se abre para quem sabe o que perdeu.
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A SOCIEDADE DOS BIBLIOTECÁRIOS DA ABÓBORA
Há quem pense que Sir Ratatônio trabalha sozinho.
Não trabalha.
Espalhadas pelas Pequenas Portas do Solar existe uma antiga sociedade de ratos bibliotecários conhecida como Sociedade dos Bibliotecários da Abóbora.
Ninguém sabe ao certo quantos são.
Nem onde ficam todas as suas bibliotecas.
Nem há quanto tempo existem.
Sabe-se apenas que cada bibliotecário recebe uma chave, uma responsabilidade e um pedaço da memória do mundo para guardar.
Alguns preservam histórias esquecidas.
Outros catalogam receitas que sobreviveram apenas em cadernos manchados de farinha.
Há aqueles que protegem cartas nunca enviadas, personagens abandonados, canções sem autor conhecido e sonhos que quase desapareceram.
Sir Ratatônio é um dos seus membros mais respeitados.
Enquanto outros bibliotecários procuram o que já foi esquecido, ele dedica-se aos objetos perdidos: pequenas coisas que carregam lembranças maiores do que parecem.
Dizem que existe uma biblioteca secreta, mais antiga que a própria Biblioteca Cogumelo.
Uma biblioteca construída atrás das Pequenas Portas.
Uma biblioteca onde nenhuma história é considerada pequena demais para ser preservada.
A Biblioteca Abóbora.
E dizem também que, quando uma história corre o risco de desaparecer para sempre, os Bibliotecários da Abóbora já estão a caminho.
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No Solar, acreditamos que cada casa tem segredos que não pediram permissão para existir. E que alguns deles, se tratados com gentileza, tornam-se moradores.






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