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O Conselho das Galinhas

  • 6 de jun.
  • 5 min de leitura



Há no Solar um conselho que não governa. Que não decide. Que apenas comenta.


Não é conselho de mesa redonda, de voto, de minuta. É conselho de quintal, de terra batida, de olhar de lado enquanto bicam. É conselho de galinhas, e galinhas, no Solar, são presença que sabe.


São nove. Nove nomes que a Madame Hey deu, cada um com história que não lembra, cada um com personalidade que inventou e elas confirmaram. Nove vozes que não falam simultaneamente, mas sempre falam, e entre elas, cobrem tudo.


Nome Especialidade Observação

Margareth Chegadas e partidas Sabe antes de abrir portão

Josefina Migalhas e quem as deixa Memória de estômago

Judith Brigas e tensões Cisca mais perto quando há conflito

Bernadete Choro e tristeza Fica quieta, o que é raro

Abigail Estranhos no jardim Primeira a cantar alarme

Berenice Tempo e mudança Sabe quando chuva vem antes do céu

Filomena Histórias antigas A mais velha, a que não esquece

Betty Alegria inesperada Canta sem motivo, que é motivo

Dolores Perdas e ausências Procura o que sumiu, sem encontrar

Clotilde Silêncios necessários Para de bicar quando alguém precisa ouvir nada



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Como sabem


Não sabem tudo. Sabem o que importa.


Sabem porque estão sempre ali. No quintal, no limiar, no quase dentro e quase fora. Galinhas não entram na casa, não é delas, é de quem paga aluguel de outra forma. Mas ficam perto o suficiente para que a casa não se esconda delas.


Margareth, na cerca, vê quem chega. Não apenas vê: avalia. Postura de quem entra, peso de passo, intenção que não está em rosto mas está em ombro. Ela sabe e conta para as outras, em linguagem de galinha que não é fala, é comportamento, é quem cisca onde e quando.


Josefina sabe de migalhas. Sabe quem deixou, quando, por quê. Sabe que migalha não é lixo, migalha é lembrança de comida, é resto de atenção, é eu pensei em você enquanto comia. Ela as recolhe, não com gratidão, com reconhecimento. E reconhecimento, no Solar, é forma de amor.


Judith sabe de brigas. Não porque entenda palavras, palavras são para quem tem ouvido de humano. Entende vibração: passo rápido, porta que bate, silêncio que é ausência de som que deveria estar. Quando há briga, Judith cisca mais perto. Não para ouvir. Para testemunhar. Para que, depois, quando perguntarem "o que aconteceu?", haja alguém que viu, mesmo que não explique.



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Sir Ratatônio e o dilema


Sir Ratatônio acha elas indiscretas. Com razão. Galinhas que sabem demais são ameaça para rato que vive de sigilo, de espaço entre, de não ser visto.


Mas, mas ele sabe também: se algo estranho acontece no jardim, as galinhas sempre viram primeiro.


Não que entendam o estranho. Não que expliquem. Mas reagem: param de ciscar, erguem pescoço, olham para lugar onde não há nada, ou onde ainda não há nada. E Ratatônio, vendo reação, sabe que algo virá.


É aliança incômoda. Ele não pede informação; elas não oferecem. Mas há troca: ele deixa migalhas em lugares estratégicos, elas deixam de comentar onde ele passa. Não é amizade. É acordo de vizinhança, que é forma mais antiga de paz.



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O que comentam


Não falam de política, de filosofia, de sentido da vida. Falam, se falar é palavra certa, de o que é.


Que a Madame Hey acordou mais cedo hoje, e isso significa preocupação.


Que Tobias Vagalume piscou mais vezes na noite passada, e isso significa amor, ou medo, ou ambos, que são a mesma coisa.


Que o Gato do Jardim da Meia-Noite esteve na cerca, na cerca, não no jardim, na cerca e isso significa limiar sendo testado, e isso é notícia que merece ciscar mais perto da sombra.


Que Morcélio da Silva, apesar de noctívago, esteve perto da casa à tarde, e isso significa queijo bom demais para esperar, e isso é notícia de queijo, que é notícia que importa.



Filomena, a mais velha, comenta história. Não conta, galinhas não contam, repetem comportamento que é história. Quando ela cisca em certo lugar, as outras sabem: ali aconteceu algo, uma vez, que não deve ser esquecido. O quê? Não importa. Importa lembrar que aconteceu.


Betty, a mais jovem, canta sem motivo. O que é motivo: alegria existe, deve ser anunciada. As outras não reclamam. Reclamar de alegria seria indiscrição maior que alegria mesma.



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A sabedoria esquecida


Galinhas, no mundo lá fora, são símbolo de besteza. De besta, no sentido de não pensar, de apenas bicar, ciscar, pôr ovo, morrer.


No Solar, são símbolo oposto: de sabedoria que não precisa de inteligência. De saber que é corpo, que é terra, que é tempo passado no mesmo lugar até que o lugar revele segredo.


Bernadete sabe quando chuva vem. Não porque leia céu, lê pó, lê inseto, lê cheiro que não tem nome mas tem direção. Berenice sabe quando mudança vem. Não porque ouça notícia, ouve passo diferente na casa, porta que abre mais tarde, Madame Hey que fala sozinha em tom novo.


Isso não é mágica. É permanência. É atenção. É o que acontece quando se está no mesmo lugar, dia após dia, sem pressa de ir embora, de ser outra, de melhorar.


"O Conselho das Galinhas não é sábio porque sabe muito. É sábio porque esqueceu de que precisa saber de tudo para ser importante."



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Hoje


As nove continuam no quintal. Continuam bicando, ciscando, pondo ovos que não são para venda, são para continuidade. Continuam comentando em linguagem de galinha, que é linguagem de presença, de postura, de quem está perto de quem e por quê.


Sir Ratatônio continua achando-as indiscretas. Continua deixando migalhas. Continua olhando, de relance, para ver se reagem e quando reagem, preparando-se para o que virá.


A Madame Hey continua não entendendo tudo o que sabem. Não precisa. Precisa apenas saber que sabem, e que, em casa que é Solar, não há conhecimento que seja só de quem conhece. Há também conhecimento de quem está, de quem permanece, de quem cisca no mesmo lugar até que o lugar fale.


E o lugar fala. Por meio de Margareth, que vê chegada. De Josefina, que lembra migalha. De Clotilde, que para de bicar quando silêncio é necessário.


Fala, e o Conselho ouve, e comenta, e sabe sem que ninguém lhes tenha pedido para saber, sem que ninguém possa pedir para esquecer.


"No Solar, sabedoria não é só de quem lê, quem escreve, quem guarda segredo de gato. Sabedoria é também de quem cisca, de quem poe, de quem está sem promessa de grandeza. O Conselho das Galinhas é prova de que nove vozes que comentam cotidiano cobrem tudo que importa e que importância, sendo Solar, é feita de visto, de lembrado, de não esquecido."





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No Solar, acreditamos que galinhas são sábias. Não porque dizemos, porque elas estão, e em estar, em ciscar, em comentar sem parar, criam tecido de conhecimento que não precisa de aprovação para ser real. O Conselho das Galinhas não manda. Apenas sabe. E saber, no Solar, é poder que não precisa de força. Apenas de permanência, de olho atento, de não ter pressa de ser outra coisa.




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