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Trevoso

  • 6 de jun.
  • 2 min de leitura

Há no Solar moradores que cuidam de jardins.


Moradores que cuidam de histórias.


Moradores que cuidam de memórias.


E há Trevoso.


Fantasma profissional.


Ou pelo menos é isso que ele insiste em dizer.


A verdade é que ninguém jamais o viu assustar alguém com sucesso.


Nem uma única vez.


---


O Fantasma das Pequenas Assombrações


Trevoso mora nos corredores silenciosos.


Nas escadas depois do anoitecer.


Nos cantos onde a luz da lanterna encontra a sombra.


Não porque goste da escuridão.


Porque acredita que é exatamente ali que um fantasma deveria morar.


Seu grande sonho é ser assustador.


Mas existe um problema.


Trevoso é extremamente gentil.


E isso atrapalha bastante.


Sempre que tenta assustar alguém, acaba pedindo desculpas logo depois.


Às vezes antes.


---


O Primeiro "BU!"


Dizem que sua primeira tentativa de assombração aconteceu muitos anos atrás.


Ele surgiu atrás de Madame Hey durante uma madrugada silenciosa.


Abriu os braços.


Respirou fundo.


E gritou:


— BU!


Madame Hey olhou para ele.


Sorriu.


Ofereceu chá.


Desde então, Trevoso nunca conseguiu recuperar totalmente sua reputação.


---


As Madrugadas


É durante a madrugada que ele aparece.


Não para assustar.


Para fazer companhia.


Quando alguém não consegue dormir.


Quando uma história termina tarde demais.


Quando a chuva resolve conversar com as janelas.


Quando a saudade aparece sem convite.


Trevoso costuma surgir por perto.


Silencioso.


Sentado.


Ouvindo.


Às vezes não diz nada.


Às vezes pede que contem mais uma história.


Porque adora histórias.


Especialmente as que terminam bem.


---


O Clube das Histórias de Meia-Noite


Poucos sabem disso.


Mas Trevoso é fundador do Clube das Histórias de Meia-Noite.


Um encontro informal que acontece sempre que duas ou mais criaturas permanecem acordadas depois da hora.


Não existe inscrição.


Não existe convite.


Não existe regra.


A única exigência é gostar de ouvir.


Os participantes se reúnem perto da lareira.


Ou na Biblioteca Cogumelo.


Ou em algum corredor que pareça especialmente confortável naquela noite.


E contam histórias.


Trevoso raramente fala.


Mas escuta como ninguém.


---


O Medo


Curiosamente, Trevoso entende muito bem o medo.


Talvez porque passe tanto tempo tentando provocá-lo.


Ele sabe que existem medos grandes.


E medos pequenos.


Os grandes precisam de coragem.


Os pequenos precisam de companhia.


Por isso costuma aparecer quando alguém está sozinho.


Não para afastar o medo.


Mas para lembrar que ninguém precisa enfrentá-lo sem companhia.


---


O Que Ele Acredita


Trevoso acredita que toda casa precisa de um fantasma.


Não para assustar.


Para lembrar.


Lembrar que mistério também é parte do encanto.


Que corredores escuros podem guardar histórias.


Que sombras nem sempre escondem perigos.


Às vezes escondem amigos.


E acredita, acima de tudo, que um bom fantasma nunca deve deixar alguém se sentir sozinho.


---


Hoje


Continua vagando pelo Solar.


Praticando sustos.


Falhando quase sempre.


Pedindo desculpas.


Ouvindo histórias.


Tomando chá.


Aparecendo nas madrugadas silenciosas.


E mantendo viva sua longa e respeitável carreira como o fantasma menos assustador que já existiu.


---


«"BU!"


— seguido imediatamente por:


"Desculpe. Foi muito alto?"


---


No Solar, acreditamos que nem todo fantasma existe para causar medo. Alguns existem para acompanhar noites silenciosas, guardar histórias contadas à luz de vela e lembrar que até a escuridão pode ser acolhedora. Trevoso, o Fantasma das Pequenas Assombrações, é essa crença vestida de lençol, laço borboleta e boas intenções.

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