Minerva M'argarida - Dona Penumbra
- 26 de mar.
- 5 min de leitura
Atualizado: 6 de jun.
Há no Solar uma torre que não foi construída. Que cresceu, ou foi encontrada, ou simplesmente estava esperando ser notada.
E em torre que não foi construída, há zeladora que não foi contratada.
Que apareceu, como nome que ninguém ouviu dizer, mas que simplesmente está escrito em ar, em sombra, em reconhecimento de quem precisa saber.
Dona Penumbra.
Parece ter sido desenhada com caneta que nunca parou no lugar certo.
Alta demais, fina demais
proporção que não é humana, não é animal, é personagem de história que saiu da página antes de página existir.
Ombros levemente caídos, como se estivesse sempre escorregando para dentro de si mesma, para sombra que é também abrigo.
O vestido é feito de retalhos de noite.
Partes lisas, que são noite calma.
Partes enrugadas, que são noite de vento.
Partes que parecem sombra mesmo, não tecido, não matéria, apenas ausência de luz que resolveu ser forma.
Mangas longas, demais, arrastando no chão como se esquecessem de terminar, ou como se terminar fosse desnecessário, como se incompletude fosse elegância.
"Dona Penumbra não é vestida. É vestida pelo que falta."
Olhos grandes, brilhantes, atentos demais, atenção que não é vigilância, é curiosidade que não se move, é espera que não precisa de objeto.
Um deles levemente maior que o outro, assimetria que não é defeito, é caráter, é decisão de quem desenhou de propósito torto.
Boca pequena, sorriso delicado que surge em momentos errados.
Não é sorriso feliz, é sorriso de quem sabe coisas que não conta, de testemunha que não é chamada, de zeladora que zela de formas que ninguém pediu.
Comportamento teatral.
Mas sozinha, teatro que não é para plateia, é para si mesma, para sombra que assiste, para torre que é também personagem.
Anda pela torre como se estivesse sendo observada, mesmo quando não está.
Faz pequenas reverências para ninguém, para canto, para escada, para objeto que merece atenção.
Arruma objetos que já estão arrumados, não por obsessão, por cerimônia, por reconhecimento de que arrumar é também forma de estar presente.
Às vezes, gira no próprio eixo. Devagar. Como se estivesse dançando com silêncio. Silêncio que é parceiro, é acompanhante de sempre, é música que não se ouve mas se sente no corpo.
"Dona Penumbra não fala. Mas responde com gesto, com mudança, com presença que é resposta."
Coleciona inúteis. Não por utilidade futura, por dignidade do estranho, por beleza do que não serve, por caráter do descartado.
Na torre, encontra-se:
- Xícaras rachadas, organizadas por "humor", não dia, não hora, humor: esta é melancólica, esta é irônica, esta espera sem saber o quê
- Chaves que não abrem nada, penduradas em ordem que não é cronológica, é poética
- Relógios parados em horários diferentes, cada um guardando momento que não passou, instante que persistiu
- Um sapato só, de vários pares, não perda, intenção: sapatos que decidiram ser único, ser individual
- Cartas nunca enviadas, empilhadas, não por remetente, por peso de não-dito
E o mais estranho: tudo muda de lugar sozinho.
Mas sempre de forma "organizada".
Não bagunça de As Pintas, é rearranjo, é conversação de objetos, é zeladora que zela mesmo quando não está vendo.
"Dona Penumbra não guarda objetos. Guarda intenções que não se realizaram e em guardar, dá-lhes realidade."
O Jardim da Meia-Noite
Não cuida como alguém normal.
Corrige
correção que não é para melhor, é para caráter.
Planta que cresce torta? Ela deixa mais torta ainda, com intenção que não era da planta, mas agora é.
Pedra que cai? Posiciona como se tivesse sido planejado, acidente que virou decisão. Caminho que se forma? Muda o trajeto, desvio que é descoberta.
Não busca beleza. Busca caráter, aquilo que não é perfeito, mas é inesquecível, único, com história.
"Jardim da Meia-Noite, sendo sombra, sendo mistério, precisa de zeladora que não ilumina. Que escurece com intenção."
Às vezes, bem às vezes, raridade que é forma de ritual, aparece na varanda da torre. Olha diretamente para casa principal. E faz aceno: lento, elegante, estranho.
Não é saudação.
Não é ameaça.
É reconhecimento: "eu sei que você está aí".
É pergunta que não espera resposta: "e você sabe que eu sei?". É ponte, limiar, comunicação que não precisa de palavra.
Madame Hey, às vezes, acena de volta.
Não sempre. Quando acena, é resposta, é continuação, é diálogo de silêncio. Quando não acena, é também resposta, resposta de quem sabe que saber é suficiente.
"Dona Penumbra não é amiga. Não é inimiga. É testemunha de sombra, zeladora de torre que não foi construída, presença que é quase ausência, e em quase, é perfeita."
Com o Gato Preto: ambos são sombra, mas de formas opostas.
Gato é ausência que pesa, Penumbra é presença que se dissolve.
Não se encontram, se reconheceriam, se encontrassem, e em reconhecer, se anulariam ou se completariam. Nenhum dos dois quer saber.
Com Lucerna: luz na entrada × sombra na torre. Reverência mútua de quem vigia limiares diferentes. Não conversam, brilham uma para outra, em distância que é respeito.
Com Avelã: outono que solta × zeladora que corrige. Diálogo sem palavras de deixar ir vs. dar forma. Não conversam, mas equilibram o Solar: sem soltura, tudo é prisão; sem forma, tudo é caos.
Com Sir Ratatônio: respeito de colecionadores. Ele de objetos perdidos, ela de inúteis encontrados. Não trocam, reconhecem.
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E então existe Arrepius.
O único ser do Solar capaz de transformar solenidade em confusão em menos de um minuto.
Um gato dourado vestido como pequeno diabo.
Não porque seja maligno.
Porque considera a travessura uma forma legítima de pesquisa.
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Arrepius não mora na torre.
Invadiu.
Há diferença.
Ninguém sabe quando chegou.
Ninguém sabe por qual porta entrou.
Ninguém sabe se entrou.
Talvez sempre tenha estado lá.
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Coleciona perguntas inconvenientes.
Objetos fora do lugar.
Pequenas desordens cuidadosamente planejadas.
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Se Dona Penumbra organiza o estranho,
Arrepius produz o estranho.
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Ele empurra livros.
Esconde chaves.
Troca etiquetas.
Move objetos alguns centímetros para a esquerda.
Nunca o suficiente para ser percebido imediatamente.
Sempre o suficiente para provocar dúvida.
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"Dúvida", segundo Arrepius, "é o começo de toda boa história."
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Os dois raramente parecem companhia um do outro.
Mas são.
De maneira difícil de explicar.
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Às vezes Arrepius derruba algo.
Dona Penumbra recoloca.
Às vezes Dona Penumbra organiza.
Arrepius reorganiza.
Às vezes passam horas inteiras no mesmo cômodo sem se olhar.
Como duas tempestades diferentes dividindo o mesmo céu.
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Ele provoca.
Ela ignora.
Ele insiste.
Ela continua ignorando.
E talvez seja exatamente por isso que ele permanece.
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Arrepius descobriu algo que poucos descobrem:
Dona Penumbra não reage.
Mas percebe tudo.
E ele considera isso um desafio pessoal.
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Hoje
Dona Penumbra continua na torre.
Continua girando, arrumando, colecionando, corrigindo o Jardim da Meia-Noite.
Continua não falando, respondendo, sendo presença que é resposta.
"Dona Penumbra, a Zeladora da Torre, é prova de que Solar não é apenas luz, não é apenas crescimento, não é apenas festa. É também sombra, incompletude, estranheza que não se explica. É torre que não foi construída, zeladora que não foi contratada, aceno que não é saudação. E em ser tudo isso, completa, porque casa que só tem luz não é casa, é prisão de claridade."
Dizem que Minerva nasceu velha.
Não velha de idade.
Velha de observação.
Enquanto outras crianças perguntavam "por quê?", Minerva perguntava "e depois?".
Enquanto outras colecionavam brinquedos, ela colecionava significados.
Talvez por isso tenha encontrado a torre.
Ou talvez a torre tenha encontrado ela primeiro.
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No Solar, acreditamos que sombra é necessária. Que estranheza é bem-vinda. Que zeladora que não fala, apenas gira, apenas arruma o já arrumado, apenas acena sabendo que sabe, é guardiã do que não pode ser visto de outro jeito. Dona Penumbra é essa crença feita torre, feita vestido de retalhos de noite, feita silêncio que responde sem ser perguntado.





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