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A serenata das Poças

  • 13 de mar.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 14 de mar.


Há música no Solar que não vem de instrumentos. Vem de água parada, de garganta, de paciência.

A serenata das Poças não se apresenta.

Apenas acontece nas noites em que a umidade sobe da terra e as estrelas parecem mais distantes que o normal.

Quatro sapos, quatro funções, uma única certeza: som é coisa que se sente antes de se ouvir.

Dom Bemol é o fundo.

O baixo.

O que vibra no peito antes de chegar aos ouvidos.

Ele não canta para ser ouvido, canta para ter certeza de que a terra ainda está lá, ouvindo. Sua voz é tão grave que as folhas mais próximas tremem sem que ninguém saiba por quê. Dizem que Dom Bemol só abre a boca quando está certo de que o silêncio merece ser interrompido.

Isso pode levar horas. Às vezes, noites inteiras de espera. Mas quando vem, vem como raiz que encontra água: inevitável, profundo, antigo.


Perereca Lá é o oposto. Aguda, nervosa, impaciente.

Ela canta enquanto Dom Bemol ainda respira para começar. Interrompe. Sobrepõe.

Faz o silêncio parecer erro. Sua voz soa como folha seca raspando pedra, como estalo de cotovelo, como pergunta que não espera resposta.

Sem ela, a Serenata seria apenas meditação.

Com ela, é conversa. Discussão. Vida.


Sapinho Ré não para. Nunca sabe exatamente por que canta, apenas que parar seria desonra.

Seu som é repetição, ritmo, o batimento cardíaco da noite.

Ré-ré-ré-ré não melodia, mas pulso .

Quando outros animais tentam dormir, o Sapinho Ré que lhes lembra: a noite é longa, mas finita.

Cada ré é uma unidade de tempo. Conte se puder.


E Maestro Dó, se é que ele ainda ouve, é o silêncio que começa.

Quase surdo, quase pedra, ele sente vibração no peito onde outros sentiriam no tímpano. Sua batida não é de pauzinho.

É uma pata na água, uma só vez.

O momento em que a poça decide ser espelho.

Quando Maestro Dó bate, os outros três sabem: agora.

Não porque ele mande. Porque ele permite .


A Serenata das Poças não tem partitura.

Tem umidade.

Tem lua.

Tem a distância exata entre quatro corações que batem em ritmos diferentes, mas que, por algumas horas, coincidem.

A Madame Hey ouviu-a pela primeira vez antes de haver casa.

Dormiu no chão nu, olhando estrelas que ainda não sabiam que ali haveria telhado. Acordou com vibração no peito, não medo.

Presença.

Dom Bemol havia começado. Perereca Lá respondeu antes de ele terminar. Sapinho Ré não deu tempo de respirar. E Maestro Dó, ela sentiu mais do que ouviu, bateu uma vez na água.

Ela não dormiu mais naquela noite.

Aprendeu que no Solar, a noite também é dia.

Apenas de outros habitantes.

Dizem que foi então que decidiu: o Solar teria janelas sempre abertas.

Para quem cantar lá fora poder ser ouvido lá dentro.

A Banda não toca para plateia.

Não reconhece aplauso.

Mas às vezes, em noites de chuva, quando a Madame Hey deixa uma vela na janela, Maestro Dó bate duas vezes na água. A segunda, dizem, é para ela.


Joana de Pintas, a joaninha, é a única que ouve tudo. Não canta, escuta.

Sobe na margarida mais alta não para ver, mas para estar no mesmo nível do som. Quando ela aparece na sua mão, dizem que alguém está prestes a contar um segredo. Ninguém sabe quantas pintas ela tem. Cada vez que alguém conta, são diferentes.

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No Solar, acreditamos que música não é feita de notas. É feita de encontro, de quatro vozes que nunca ensaiaram, mas que, na umidade certa, lembram que já se conheciam antes de existir.



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