Astérula
- 14 de mar.
- 4 min de leitura
Há no Solar uma impossibilidade calma.
A água da fonte que não deveria estar ali.
A estrela que não deveria respirar nela.
Astérula é uma estrela-do-mar.
Pequena, do tamanho de uma mão que se abre para receber.
Cinco braços que não apontam para lugar nenhum, e por isso apontam para todos. Rosa-pálida, às vezes ou talvez seja a luz da tarde.
Às vezes cinza-perolado, como concha que esqueceu de fechar.
Às vezes, nas noites de lua cheia, quase translúcida , como se o brilho viesse de dentro da água, não dela.
Ela não deveria existir ali. Não há mar em quilômetros.
Não há sal suficiente na fonte para que uma estrela-do-mar sobreviva e mesmo assim, ela sobrevive.
Ou melhor: persiste . Não se move muito, não cresce, não envelhece de forma que se possa medir.
Apenas está , no fundo da Fonte dos Desejos, como se sempre tivesse sido parte da pedra.
A Madame Hey encontrou-a numa manhã de chuva.
Não a colocou lá isso ela tem certeza.
A fonte estava vazia na noite anterior, limpa, esperando água da próxima chuva.
E na manhã seguinte, ali estava: Astérula, no centro, como quem desceu do céu e encontrou o espelho errado. Ou o certo.
"Algumas coisas no Solar não chegam. Apenas são encontradas ."
Ela não tem olhos que se vejam, mas há percepção nela.
Quando alguém se aproxima da fonte, Astérula sabe.
Não se vira, estrelas-do-mar não têm essa pressa, mas reconhece .
E reconhecimento, no Solar, é forma de amor.
Os cinco braços guardam cinco modos de desejo:
O do Norte (que aponta para a casa)
Desejos de permanência.
Um fio de cabelo, raiz que se deixou crescer.
O do Leste (que aponta para o nascer)
Desejos de começo
Semente, palavra não dita, primeiro rabisco.
O do Sul (que aponta para o jardim)
Desejos de crescimento
Pétala de margarida, terra do próprio vaso.
O do Oeste (que aponta para o poente)
Desejos de despedida
Pedrinha de caminho, cinza de vela, lembrança.
O do Centro (o que não aponta)
Desejos de mistério
Segredo sussurrado, nome não revelado, silêncio.
A Madame Hey não ensinou isso a ninguém.
Quem frequenta o Solar simplesmente sabe , ou não sabe, e ambos estão certos.
O ritual não envolve moedas.
Astérula não se compra.
Oferece-se o que se tem de mais íntimo e espera.
A água é espelho e véu.
A estrela, no fundo, ou escuta ou não escuta.
Quando escuta, se move .
Não muito: uma contração lenta, uma curva de braço, uma sugestão de que o desejo foi registrado . Não realizado. Apenas ouvido .
E no Solar, ser ouvido é quase o mesmo que ser realizado.
"Astérula não concede. Presencia . E presença, algumas vezes, é o bastante."
Sir Ratatônio, em suas buscas noturnas, uma vez encontrou a fonte seca, raro, mas acontece, em verões longos.
Astérula estava encolhida, pequena, quase pedra.
O rato, cerimonioso até na urgência, deixou cair uma gota de água que trouxera em concha improvisada.
A estrela não se moveu. Mas no dia seguinte, quando a chuva finalmente veio, havia, quem viu, viu, um brilho diferente nela. Como quem agradece sem palavras.
Tobias Vagalume deixou cair, certa noite, uma semente na água. Não cresceu, água de fonte não é terra, mas Astérula segurou-a em um dos braços, dias inteiros, como quem guarda promessa que não pode cumprir.
Quando a semente finalmente soltou-se e afundou, a Madame Hey a encontrou meses depois, germinando no filtro da bomba. Plantou-a.
É uma margarida diferente das outras, mais pálida, quase luminescente em noites de lua. Margarida de Astérula.
As Pintas não entendem a estrela. Não há o que roubar de quem não possui, nem atenção para distrair, nem tempo para confundir.
Uma vez, Septa sussurrou para a fonte: "você veio do mar" . Astérula não respondeu. Mas naquela noite, quem olhou de perto jurou que seus braços estavam mais abertos que o normal.
Como quem sonha com ondas sem nunca ter visto oceano.
Don Caracol, o traçador de mapas, desce às vezes até a borda da fonte. Deixa rastro que a água apaga. Astérula o observa, ou não, mas há diálogo entre eles, na lentidão que ambos entendem. Um traça no chão, outra no fundo da água. Dois modos de ser caminho.
"Astérula não é mágica. É apenas outra, vinda de onde não deveria, vivendo onde não deveria, ouvindo o que não deveria poder ouvir. No Solar, isso é o suficiente para ser sagrada."
A Madame Hey, em certos amanheceres, senta-se junto à fonte e fala baixinho. Não pede nada. Apenas conta : o dia que foi, o dia que será, o medo pequeno que trouxe para a cama e o sonho que não lembra direito. Astérula não se move nessas ocasiões. Mas está ali. E estar , no Solar, é a forma mais antiga de compaixão.
Há quem diga que, em noites de chuva muito forte, quando o céu e a terra parecem querer trocar de lugar, Astérula brilha. Não reflete, emite .
Uma luz rosada, tênue, que só se vê de canto. Como se lembrasse, por algumas horas, de onde veio. Ou de onde ainda é, em alguma dimensão que a fonte toca sem saber.
A Madame Hey já tentou fotografar esse brilho. Nunca conseguiu.
Mas guarda, na gaveta das coisas que não têm nome, uma folha de papel onde rabiscou, numa dessas noites: "Ela ainda sabe do mar" . Não sabe o que quer dizer. Astérula, se souber, não diz.
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No Solar, acreditamos que alguns desejos não precisam ser realizados. Apenas precisam ser deixados na água, no silêncio, na mão de uma estrela que não deveria estar ali, mas que, por estar, nos lembra que o impossível é apenas o possível que ainda não encontrou sua fonte.






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