Tobias Vagalume
- 13 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 14 de mar.
Há criaturas no Solar que não podem ser vistas de frente.
Tobias é uma delas.
Não porque seja tímido, porque é luz .
E luz, quando vista, deixa de ser luz.
Torna-se apenas claridade, apenas dia, apenas o que já se conhece.
Tobias prefere o piscar.
O quase.
O foi-se que deixa saudade antes mesmo de ter sido plenamente visto.
Dizem que ele nasceu de uma centelha.
Não de fogo, de estática, daquele choque pequeno que acontece quando a pele toca tecido seco, quando o gato se espreguiça no tapete, quando alguém desliga a luz e ainda vê rastro de brilho nas pálpebras.
Tobias é esse rastro, feito esquilo, feito pergunta.
Ele não voa como pássaro.
Voa como ideia, rápido, irregular, iluminando cantos que não pediram iluminação.
Sobe às copas mais altas não para dominar, não para ver.
Para estar no mesmo nível do breve.
As luzes do jardim são baixas: vaga-lumes distantes, reflexos de poça, o brilho particular de folha molhada.
Tobias pisca entre elas, uma nota que não sabe se é luz ou som.
"Tobias enterrou uma semente no outono e não lembrou onde. Na primavera, uma margarida nasceu exatamente no meio do caminho. O jardim sabe mais que o jardineiro."
Isso é o que ele faz: semear sem memória .
Não porque seja distraído, porque é fiel ao acidente.
O jardim do Solar não é geometria.
É poesia em terra, e poesia precisa de surpresa.
Tobias, pousando aqui e ali, deixando cair o que carrega sem que ninguém peça, garante que o jardim nunca seja apenas o que foi planejado.
As margaridas que nascem de seus esquecimentos são diferentes.
A Madame Hey notou: pétalas mais curtas, centro mais dourado, talvez, ela não tem certeza, um cheiro que não se explica.
Margaridas de Tobias.
Flores que não pediram permissão para existir onde existem.
Ele não desce para ajudar nas buscas de Sir Ratatônio.
Esquilos não ajudam: acumulam .
Mas às vezes, no meio do voo, deixa cair uma semente no caminho deles.
Acidente?
Presente?
O jardim não explica.
E quando o rato, montado em Nicolau, encontra uma flor onde não deveria haver flor, sabe, sabe , sem entender, que Tobias passou por ali horas, ou dias, ou segundos antes.
A relação de Tobias com Don Caracol é de distância respeitosa.
O caracol traça no chão; Tobias pisca nas alturas.
Nunca se encontram, mas seus rastros conversam: a curva da baba, a curva do voo. Às vezes, na primeira luz, a Madame Hey encontra padrões, quase padrões, que sugerem colaboração.
Ou conspiração.
Ou coincidência poética, que no Solar é a mesma coisa.
Com Rudolph, o gato da noite, Tobias tem entendimento mudo.
Rudolph vê sem luz; Tobias é luz que não ilumina para ver.
Nas noites de lua nova, quando o Jardim da Lua está mais escuro, Tobias pisca mais, não porque tenha medo do escuro, mas porque respeita o que Rudolph guarda ali.
Cada piscar seu é uma pergunta que o gato não responde.
E não responder, para Tobias, é resposta suficiente.
Ele não tem ninho fixo. Dorme onde pousa, quando pousa, em ocos de árvore, em nichos de muro, em espaços que só existem porque ele os encontrou.
Sua luz, apagada, é apenas esquilo pequeno demais para importar.
Sua luz, acesa, é presença que não se pode tocar.
"Tobias Vagalume não ilumina para que você veja. Pisca para que você lembre que ainda há escuridão ao redor."
A Madame Hey tentou, uma vez, prender sua luz.
Colocou vidro, colocou tampa, colocou espera.
Tobias piscou dentro do pote, brilhante, preso, triste de uma forma que ela não soube nomear.
Quando abriu, ele não saiu imediatamente.
Piscou uma última vez, no limiar, e ela entendeu: luz que se prende deixa de ser luz.
Torna-se apenas objeto brilhante.
Ela nunca mais tentou.
Agora, quando o vê, se o vê, sorri e desvia o olhar.
Tobias brilha mais para quem não olha diretamente.
É sua natureza, e também sua gentileza: não quer ser carga demais para retina humana. Apenas sugestão , apenas possibilidade de brilho .
No outono, quando Tobias enterrou a semente que virou margarida no meio do caminho, ele não estava pensando na primavera.
Não pensava em nada.
Estava apenas pousado, impaciente, brilhando sem saber por quê e o jardim, que sabe aproveitar o acidente, aproveitou.
"O jardim do Solar não é o que a Madame Hey plantou. É o que Tobias esqueceu."
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No Solar, acreditamos que luz não é para ser possuída. É para ser vista de canto , na hora em que você desiste de procurar e ela aparece, pisca, e deixa você na escuridão mais rica, porque agora sabe que algo brilhou, uma vez, bem ali.






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