Malvina M'argarida Esmeralda - A Guardiã da Colina
- 6 de jun.
- 3 min de leitura

Há no Jardim da Meia-Noite uma colina.
Não muito alta.
Não muito distante.
Mas alta e distante o suficiente para parecer outro mundo.
No topo dessa colina existe uma casa que parece ter crescido do chão.
Não foi construída.
Foi cultivada.
Como se alguém tivesse plantado uma semente de casa e esperado pacientemente.
Ali mora Malvina M'argarida Esmeralda.
Malvina tem dezessete anos.
Ou talvez dezessete primaveras.
Porque idade, para ela, parece menos importante do que estação.
Há pessoas que contam aniversários.
Malvina conta colheitas.
Seus cabelos são longos, escuros e teimosos.
Parecem ter feito acordo secreto com o vento.
Nunca ficam exatamente onde deveriam.
O que é conveniente.
Porque Malvina também nunca fica.
Está sempre indo buscar alguma coisa.
Uma muda.
Uma ideia.
Uma receita.
Uma pergunta.
Seu chapéu é maior do que precisa ser.
Como quase tudo que ela ama.
As botas são pesadas.
Os bolsos estão sempre cheios.
Sementes.
Anotações.
Pedras.
Ferramentas.
Objetos cuja utilidade ela esqueceu.
Mas cuja importância continua existindo.
"Malvina acredita que perder a utilidade não é o mesmo que perder o valor."
A Colina das Abóboras não é organizada.
Pelo menos não do jeito que outras pessoas entendem organização.
Há flores crescendo perto de ferramentas.
Ferramentas perto de livros.
Livros perto de canecas.
Canecas perto de mudas.
Mudas perto de receitas.
Receitas perto de problemas que ainda não foram resolvidos.
E, de algum modo, tudo faz sentido.
Malvina conversa com plantas.
Não porque ache que elas respondem.
Mas porque acredita que crescer é mais fácil quando alguém escuta.
Às vezes fala com trovões.
Também não espera resposta.
Mas considera falta de educação não cumprimentar.
"Malvina não cultiva jardins.
Cultiva possibilidades."
Na casa cogumelo encontram-se:
Cadernos começados e nunca terminados.
Receitas anotadas em papéis improváveis.
Vasos esperando sementes que ainda não existem.
Ferramentas herdadas cujo uso ninguém lembra.
Frascos contendo coisas identificadas apenas como "talvez úteis".
Desenhos de projetos futuros.
Muitos projetos futuros.
E no centro de tudo isso está Nebuloso.
O gato preto da colina.
Companheiro.
Fiscal.
Crítico.
Sócio não declarado.
Nebuloso observa.
Sempre.
Com expressão de quem sabe exatamente o que está acontecendo.
E desaprova metade.
Malvina diz que ele a ajuda.
Nebuloso diz nada.
O que, para um gato, significa muito.
Há quem ache que a Colina das Abóboras seja um lugar sobre jardinagem.
Não é.
É um lugar sobre esperança.
Porque plantar exige uma forma muito específica de coragem.
A coragem de acreditar em algo que ainda não existe.
Malvina acredita em muitas coisas que ainda não existem.
Acredita em jardins futuros.
Em livros futuros.
Em amizades futuras.
Em versões futuras das pessoas.
Inclusive dela mesma.
"Enquanto Dona Penumbra pergunta o que as coisas significam, Malvina pergunta o que elas podem se tornar."
Quando o sol desaparece atrás das árvores do Jardim da Meia-Noite, as luzes da casa cogumelo continuam acesas.
Às vezes ela está desenhando.
Às vezes escrevendo.
Às vezes planejando.
Às vezes apenas observando uma semente.
Como se observação também fosse uma forma de cuidado.
Talvez seja.
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Hoje, Malvina continua na colina.
Continua plantando.
Continua imaginando.
Continua colecionando projetos maiores do que deveria.
Continua acreditando que amanhã pode ser mais bonito que hoje.
Não porque o hoje seja ruim.
Mas porque crescimento é sua maneira favorita de amar o mundo.
🎃 Malvina M'argarida Esmeralda, Guardiã da Colina, é a prova de que algumas pessoas não passam pela vida construindo coisas. Elas passam cultivando aquilo que ainda vai florescer.





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