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Seu Zecatixo

  • 14 de mar.
  • 5 min de leitura

Há no Solar um morador que não veio do folclore europeu, não trouxe mistério de outras terras.

É brasileiro, de raiz, de terra, de calor no peito.

Seu Zecatixo

Lagartixa, chapéu de palha, e um jeito de estar no mundo que faz a casa parecer mais casa.


Ele não é grande. Lagartixas não são.

Mas há presença nele, daquelas que ocupam espaço sem disputá-lo.

Sua pele é o cinza-pardo dos muros antigos, das calçadas que viraram quintal, dos dias que não são nem quentes demais nem frios demais, apenas agradáveis, como ele gosta de dizer, esticando o sotaque até a última sílaba.


O chapéu de palha é dele.

Ninguém sabe onde conseguiu.

Talvez tenha trazido.

Talvez tenha aparecido um dia, junto com ele, quando decidiu que o Solar seria seu lugar.

É pequeno, desfiado nas bordas, amarelado pelo sol de tantas manhãs.

Ele não tira nem para dormir, dizem.

Especialmente para dormir. "Chapéu de palha é que nem coberta", ele explica, embora ninguém tenha perguntado. "Tira, você sente falta."


"Seu Zecatixo não é guardião no sentido dos outros. É morador no sentido mais profundo: faz do lugar sua vida, e da vida, um lugar."


Ele gosta de café. Não café forte, de gente apressada. Café morno, de gente que tem tempo.

Café que se estende pela manhã, que acompanha conversa que não vai a lugar nenhum e por isso vai a todos.

E com o café, obrigatoriamente, pão de queijo.

Não o de padaria, comprado.

O que ele mesmo... bem, não faz. "Aparace", ele diz, com um piscar que é quase piscadela. "No Solar, pão de queijo é como chuva: quando precisa, vem."


A Madame Hey aprendeu a deixar na bancada, num pratinho pequeno, dois ou três. Nunca perguntou de onde vêm. Seu Zecatixo nunca explicou.

É acordo tácito, de gente que mora junto há tempo suficiente para saber que algumas coisas não precisam de explicação, apenas de continuidade.


Ele vive nos canteiros de ervas. Não no canteiro, como Don Caracol vive no rastro.

Entre os canteiros, nas frestas de tijolo, nas sombras de folha grande, nos lugares onde o sol bate de manhã e a sombra chega à tarde.

É território de transição, e ele é animal de transição, não no sentido de Rudolph, que transita entre casa e jardim. No sentido de estar sempre no limiar, no quase, no já-ainda-não.


"Seu Zecatixo é cheiro. É olfato, é memória do nariz. Ele sabe quando a terra está boa para plantar antes de qualquer um. Sabe quando a chuva vem pelo cheiro do ar, quando o café está pronto pelo aroma, quando a casa está triste pelo silêncio diferente."


Sua cauda é longa, nervosa, viva. Não para nunca de mexer, mesmo quando ele está parado. É balanço de conversa, de pensamento, de espera aí que eu vou lembrar o que ia falar.

Quando se empolga, o que acontece frequentemente, com histórias de festa junina passada, de São João que ele jurou ter visto em algum quintal, de fogueira que não era deste Solar mas poderia ter sido, a cauda bate no chão, tum-tum-tum, como se fosse o próprio tambor da conversa.


Ele não é sábio como O Louva. Não é misterioso como Sir Ratatônio. Não é poético como Astérula.

É gente.

Gente de verdade, de corpo pequeno e alma larga.

De aquecer a mão no café que esfria, de contar história que já contou e que sempre tem detalhe novo, de estar ali quando precisa sem que ninguém precise pedir.


"Seu Zecatixo não dá conselhos. Dá presença. E às vezes, numa manhã de junho, quando o café está bom e o pão de queijo está quente, isso é o mesmo que sabedoria."


Ele conversa com todos, mas de forma diferente de Rudolph. Rudolph negocia, investiga, diplomacia. Seu Zecatixo bate papo. Pergunta como vai, não porque queira saber, mas porque quer ouvir.

Conta do tempo, do vizinho, da lagartixa que viu no muro do lado "parente distante, sabe como é, família grande" e de repente você se vê contando também, sem saber por quê.


Com Tobias Vagalume, há cumplicidade de pequeno. Ambos sabem o que é ser menor que a sombra que projeta. Tobias pisca; Seu Zecatixo, se pudesse, piscaria de volta. Em vez disso, mexe a cauda no ritmo do piscar. É conversa. É "tô aqui, tô vendo você, tá tudo bem".


Com Don Caracol, há respeito de lento. Dois que sabem que pressa é coisa de gente grande, de cidade, de mundo lá fora. No Solar, no canteiro, na manhã de café morno, devagar é velocidade suficiente.


As Pintas o incomodam. Não porque roubem, ele não tem nada que queiram roubar, além talvez do pão de queijo, e mesmo assim elas não comem. Incomodam porque mexem. Viram o chapéu. Trocam o lugar do prato. Deixam tudo quase no lugar, mas não exatamente.

Ele reclama, alto, para o ar, para a Madame Hey, para quem quiser ouvir: "Essas meninas, viu? Essas meninas não têm educação de roça!" Mas não faz nada. Sabe que caos é parte de casa, de vida, de festa junina que ele lembra de ter vivido em algum lugar, em algum tempo.


"Seu Zecatixo é o personagem mais brasileiro do Solar. Não porque carregue bandeira. Porque carrega jeito: o jeito de receber, de ficar, de fazer do lugar comum um lugar seu."


À noite, quando o café acaba e o pão de queijo só deixa lembrança de queijo na boca, ele sobe para as vigas.

Não para dormir de verdade, lagartixas dormem de olho aberto, metade do cérebro alerta, metade no sonho.

Para vigiar, no sentido mais suave: para estar ali, presente, caso a casa precise. De que? Ele não sabe. Mas estar é função suficiente.


A Madame Hey, certa vez, encontrou-o de chapéu torto, encolhido no canto da bancada, café esquecido ao lado.

Não estava doente.

Estava lembrando.

De festa junina, de fogueira, de alguém que dançou com ele em algum São João que talvez tenha sido real, talvez sonhado.

Ela sentou ao lado. Não falou. Ele não falou. O café esfriou. A lembrança, quem sabe, aqueceu.


"No Solar, Seu Zecatixo é o que nos lembra que casa é feita de cheiro, de gosto, de voz que conhece seu nome e o diz com carinho. Que guardião não precisa de mistério para ser sagrado. Às vezes, precisa apenas de café morno, pão de queijo, e chapéu de palha que não tira nem para dormir."


---


No Solar, acreditamos que brasileiridade não é lugar. É jeito de estar: de acolher, de demorar, de fazer do simples, café, queijo, conversa, uma forma de pertencimento. Seu Zecatixo é isso, feito lagartixa, feito chapéu de palha, feito manhã que não acaba nunca de verdade, só se estende, como sombra boa, como presença que não se explica.



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