A Primeira Margarida
- 16 de mar.
- 4 min de leitura
Há no Jardim da Lua uma flor que não é para vender. Não é para arrancar. Não é para oferecer a visitantes que chegam com peso de coração e precisam de gesto suave.
É para permanecer.
Ninguém sabe exatamente onde nasceu.
Isso, no Solar, é qualidade, não defeito.
Coisas que se sabem de onde vieram são coisas que podem ser replicadas, substituídas, esquecidas.
Coisas que aparecem, essas são únicas, essenciais, sagradas.
Alguns dizem que foi Tobias Vagalume que esqueceu a semente.
Que pousou, distraído, brilhando para si mesmo, e deixou cair algo que não sabia que carregava.
Que a terra, sendo Solar, reconheceu. Que a chuva, sendo daquela região, soube a hora de cair.
Outros dizem que o jardim a criou sozinho.
Que a terra, cansada de esperar, decidiu oferecer antes de ser solicitada.
Que a primeira margarida não foi plantada, foi desejada em voz tão baixa que só o próprio jardim ouviu, e respondeu.
A Madame Hey prefere não saber.
Saber seria possuir, e ela não possui a Primeira Margarida.
Apenas cuida.
Apenas reconhece.
Apenas, de manhã, quando a luz é de certo ângulo, para de regar outros canteiros e olha para ela.
Não é a maior.
Não é a mais branca, a mais perfeita, a mais perfumada.
É a primeira, diferença que não se vê, apenas se sente, como se sente peso de história em objeto simples.
Está no centro, se centro existe em jardim que cresceu em espiral.
Ou está na borda, se borda é onde o olho primeiro pousa.
Depende de quem olha.
Depende do dia.
Depende da necessidade de quem procura.
A Madame Hey a encontrou certa manhã, quando o Solar ainda era terreno, promessa, quase.
Era pequena, então, a margarida, é pequena agora, será sempre pequena.
Mas nessa pequenez, havia tudo: pétala que se abria sem pressa, centro que já era amarelo, talvez demais, talvez exatamente o suficiente.
Ela não colheu. Não pensou em colher. Sabia, de algum lugar que não era pensamento, que algumas coisas não são para serem usadas.
São para serem testemunhas.
"A Primeira Margarida é lembrança viva de uma verdade simples: o Solar começou pequeno. Como toda coisa que vale a pena."
Ela não é símbolo.
Símbolo é coisa que representa outra.
A Primeira Margarida é: é início, é pequenez, é permissão para começar sem saber onde vai dar.
Quando a Madame Hey duvida
e duvida,
em noites de conta que não fecha, de cansaço que não nomeia
ela vai até o jardim.
Não procura a margarida; encontra.
E vê: ainda ali, ainda pequena, ainda suficiente.
E lembra que começou com uma.
Uma semente, ou um esquecimento, ou um desejo.
Uma.
E daquela uma, o jardim.
E do jardim, a casa.
E da casa, o Solar.
E do Solar, tudo.
"Não é mágica. É persistência. É pequeno que não desiste de ser pequeno, e por não desistir, torna-se essencial."
Tobias Vagalume pisca para ela.
Não mais que para outras, menos, talvez, porque respeito se parece com distância.
Ele não sabe se foi ele que a plantou.
Não importa.
Sabe que poderia ter sido, e nisso, há responsabilidade, há cuidado.
Don Caracol não passa por cima.
Seu rastro desvia, em curva que não é curva natural, que é reverência.
Ele, que traça mapas de tudo, não traça mapa da Primeira Margarida.
Alguns lugares não devem ser mapeados.
Apenas habitados de longe.
As Pintas não a tocam.
Não por respeito, elas não respeitam, perturbam.
Mas há limite que até caos reconhece.
A Primeira Margarida é antes do caos.
É ordem original, e caos que destrói origem é caos que se destrói.
Elas sabem, instintivamente, e deixam.
Sir Ratatônio, em suas buscas, às vezes para perto.
Não procura nada, ele, que procura tudo.
Apenas está, na postura de quem reconhece igual. Porque Ratatônio, sendo rato, sendo nobreza de espaços entre, também começou pequeno.
Também foi primeiro de algo. E na pequenez da margarida, reconhece própria história.
Astérula, na fonte, não a vê
distância, ângulo, elemento diferente.
Mas sente, em noites de lua cheia, vibração que não é água, não é estrela. É pétala que se abre, mesmo no escuro, mesmo sem testemunha.
E nisso, há lição que até estrela-do-mar absorve.
Houve ofertas. Visitantes que quiseram comprar
"é apenas uma margarida, há milhares".
A Madame Hey sorriu.
Não recusou com palavras; recusou com silêncio que era parede, era fosso, era proteção.
Houve necessidade.
Noites em que só uma margarida, oferecida, salvaria.
Ela ofereceu outra.
Sempre outra.
A Primeira permaneceu.
Houve esquecimento.
A Madame Hey, ocupada, não foi ao jardim por dias.
Quando voltou, temeu.
Mas lá estava: sempre lá, pequena, constante, esperando ser lembrada para lembrar.
"A Primeira Margarida não precisa de cuidado especial. Precisa apenas de não ser interrompida. De permissão para continuar sendo o que é: início que não termina, pequeno que não cresce para ser grande, apenas persiste para ser."
Ainda está lá. Ainda é pequena. Ainda é primeira, embora outras tenham vindo, florescido, sido colhidas, sido dadas, sido usadas.
Ela não.
Ela é.
E quando a Madame Hey, agora, em noites de dúvida, vai até o jardim, não é para ver flor. É para ver tempo. Para ver que começou, que continua, que ser pequeno não é ser menos.
A Primeira Margarida, em sua pequenez absoluta, contém Solar inteiro.
Não como símbolo.
Como fato: tudo começou assim. Um. Pequeno. Quase invisível. Quase esquecível.
Mas não esquecido.
Nunca esquecido.
Porque alguém
Madame Hey, Tobias, o próprio jardim
decidiu que não colher era forma de amor.
Que deixar ser era cuidado.
Que testemunhar era participação.
"A Primeira Margarida é o Solar em miniatura: começou sem saber, cresceu sem pressa, e persiste, não porque seja especial, mas porque permitiram que fosse."
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No Solar, acreditamos que começos não devem ser superados.
Devem ser lembrados. E que pequenez, quando honrada, torna-se grandeza de outra ordem, não a da escala, mas a da essência. A Primeira Margarida não é a maior flor do jardim. É apenas a que tornou o jardim possível. E nisso, em sua pequenez eterna, é infinita.






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