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Morcélio da Silva

  • 14 de mar.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 16 de mar.

Há no Jardim da Meia-Noite criaturas que respeitam o silêncio absoluto. Que meditam na escuridão, que são mistério feito carne, que não se movem sem necessidade cósmica.

Morcélio da Silva não é uma delas.

Ele tenta. Deus ou quem quer que cuide de morcegos sabe que ele tenta. Mas há, no Solar, cheiros que não pedem permissão para invadir nariz de quem dorme de cabeça para baixo. E Morcélio, apesar de todas as suas boas intenções noturnas, é fraco diante deles.

Especialmente diante de queijo .


"Morcélio da Silva mora nas vigas mais altas do velho galho seco. Não porque seja o melhor lugar. Porque foi o primeiro que encontrou e, sendo Silva, nunca viu motivo para mudar."


Ele é morcego comum. Asa de couro que não brilha, corpo pequeno que não impõe, voz de ultrassom que ninguém ouve. Deveria ser invisível, como o Gato Preto é invisível. Mas Morcélio, tentando invisibilidade, acaba sendo notado pelo barulho, pela asa que bate em folha, pelo arrepio que causa quando passa perto demais de quem não espera.

Não é culpa dele. É constituição . Silva, além de família grande, é família de gente que ocupa espaço sem querer. Morcélio ocupa o ar do Jardim da Meia-Noite com a mesma elegância desastrada: presente, inegável, ligeiramente embaraçoso.

Ele dorme de cabeça para baixo, como manda a tradição. Mas raramente dorme completamente .

Sempre há um olho aberto, um ouvido esticado, uma narina que se agita. O Jardim da Meia-Noite é perigoso? Não mais que outros lugares. Mas Morcélio, sendo Silva, sabe que perigo é coisa que vem de fora , e queijo é coisa que vem de fora, e portanto queijo é perigo.

Que perigo delicioso.


"O queijo da Madame Hey não é queijo qualquer. É queijo de paciência, de fermentação lenta, de manhã que se estende até a noite sem pressa. Morcélio não sabe disso. Apenas sabe que, quando a casa adormece, o cheiro sobe."


E sobe. Pelas janelas que Rudolph deixa entreabertas, talvez sem querer, talvez como acordo tácito que nenhum dos dois nomearia. Pelas frestas de madeira antiga. Pelo ar que não tem corpo suficiente para segurar tanta tentação. Até as vigas do galho seco, até o nariz de Morcélio, até o estômago que ronca em ultrassom.

Ele tenta resistir. Sério, tenta.

Fica de cabeça para baixo, mais para baixo que o normal, como se gravidade pudesse anular desejo. Pensa em coisas sérias: em voo, em eco, em silêncio que o Gato Preto exige. Pensa em tudo, menos em queijo.

Pensa em queijo.


"Certas noites, Morcélio vence. Fica no galho, mastiga nada, espera o amanhecer com dignidade de quem não precisa de laticínios para ser completo. Outras noites… outras noites são noites de queijo."


Nessas noites, ele voa. Não com graça, morcegos têm graça, mas Morcélio é Silva, e Silva voa como pode, não como deveria. Asas que batem em folha escura, corpo que oscila no ar noturno, sombra que passa rápido demais para ser gato, lento demais para ser pensamento.

Chega ao telhado da casa. Desce pela varanda. Encontra a fresta, sempre lá, sempre aberta, sempre esperando como quem não espera nada.

E lá está o queijo.

Não sozinho. Nunca sozinho. Sob guarda indireta de quem sabe, de quem sempre soube, de quem faz de conta que não sabe .

Sir Ratatônio.

"O rato aparece com dignidade impecável. Não porque precise aparecer, poderia deixar o queijo, ir embora, fingir sono. Aparece porque cerimônia é o que diferencia roubo de visita. E Ratatônio, sendo nobreza, prefere visita."

Morcélio pousa. Não perto, respeito, ou medo, ou consciência de Silva em presença de Ratatônio . Inclina a cabeça, orelhas para frente, orelhas para trás, aquela expressão de quem pergunta sem querer parecer que está perguntando:

— Tem um pedaço?

Não fala, claro. Morcegos não falam, não assim. Mas há pergunta no ar, no ângulo do corpo, na espera que não é ousada o suficiente para ser exigência, nem humilde o suficiente para ser súplica. Pergunta de Silva: se tiver, ótimo; se não, também ótimo; mas se tiver…

Ratatônio suspira. Suspira como quem suspira há gerações, como quem aprendeu a suspirar antes de aprender a caminhar. Suspira que é sim , que é de novo , que é você não tem vergonha, Morcélio da Silva .

Mas sempre há um pedaço.

Pequeno. Cerimonial. Queijo que Ratatônio deixa cair, ou coloca , ou apenas está ali sem explicação. Não é presente, presente obriga. É oferecimento , que Morcélio aceita com o mesmo protocolo: pega com as patas dianteiras, inclina a cabeça, vira-se antes que o rato mude de ideia.

Voa de volta. Silenciosamente ou o mais silenciosamente que um Silva consegue. Passa por Rudolph, que sabe , que sempre soube, que deixa a fresta aberta talvez por isso. Não há troca de olhar. Gato amarelo, morcego comum, queijo de paciência. Cada um no seu lugar, cada um com seu segredo que não é segredo.

No Jardim da Meia-Noite, Morcélio retorna ao galho seco. O Gato Preto está lá. Sempre está, ou nunca está; com ele, diferença é mínima. Observa Morcélio com olhos que são poças de lua inexistente. Não com reprovação, reprovação é emoção que exige energia demais. Talvez com curiosidade . Talvez com algo que, em gato preto, passa por tolerância.

Porque mesmo jardins de mistério absoluto precisam, de vez em quando, de alguém que quebre o silêncio.

Com asas atrapalhadas.

E cheiro de queijo.

"Morcélio da Silva não é guardião do Jardim da Meia-Noite. É habitante . Diferença sutil, mas crucial: guardião protege, habitante permanece . E em permanecer, mesmo que desastrado, mesmo que distraído, mesmo que Silva, especialmente porque Silva, há também forma de cuidado."

Às vezes, nas noites sem queijo, noites tristes, noites de disciplina, noites que ele sabe que deveria ser mais, Morcélio voa em círculos sobre o jardim escuro. Não caça. Apenas voa , ecoando o espaço, mapeando escuridão com som que não se ouve. E nisso, sem saber, protege. Porque lugar que é conhecido, mesmo por morcego comum, é lugar menos assustador.

O Gato Preto, se sabe disso, não diz. O Gato Preto não diz nada. Mas às vezes, nas noites de queijo, quando Morcélio retorna mastigando, há algo que poderia ser quase sorriso na sombra onde ele está.

Ou não. Com o Gato, nunca se sabe.

"No Solar, Morcélio da Silva é o lembrete de que nem todos os moradores precisam ser misteriosos para serem noturnos. Que é possível e necessário haver lugar para o comum, o distraído, o que cede à tentação com asas que batem errado e gratidão que é sincera, embora silenciosa."

A Madame Hey, certa vez, encontrou rastro de asa na manteiga. Não reclamou. Apenas trocou de prato, colocou outro queijo, menor, mais escondido, mas lá e deixou a fresta um pouco mais aberta.

Ela não sabe de Morcélio. Sabe de algo . E no Solar, saber de algo é suficiente para criar espaço.


"Morcélio da Silva, tentando ser guardião sério, acabou sendo outra coisa: conexão. Entre o Jardim da Meia-Noite e a casa, entre o mistério e o quotidiano, entre Ratatônio e o queijo. Conexão de asas atrapalhadas, de cheiro que não se explica, de Silva que é, finalmente, família que ocupa lugar sem pedir, mas que, ocupando, torna o lugar mais vivo."

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No Solar, acreditamos que noturno não é sinônimo de sombrio. Que é possível haver e deve haver, morcego que ri de próprio eco, que se distrai com queijo, que é comum em lugar de mistério. E que esse comum, sendo Silva, sendo Morcélio, sendo de verdade , é também forma de magia. A mais rara: a que não se nota, apenas se sente, em noites de queijo, em vigas de galho seco, em tolerância de gato preto que não é, afinal, intolerável.



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