As Duas Vozes do Solar
- 16 de mar.
- 4 min de leitura
Há no Solar duas criaturas que não moram em lugar nenhum, e moram em todos.
Que não aparecem em hora marcada, e aparecem sempre que preciso.
Que não são bem-vindas, e são essenciais.
São gatinhos. Pequenos, do tamanho de mão que se fecha. Um branco, quase transparente, como feito de luz que resolveu ser sólida.
Outro preto, não o preto do Gato do Jardim da Meia-Noite, ausência, mistério, mas preto brilhante, como carvão que ainda queima, como noite que decide ser noite.
Ângelo e Arrepius. Não são nomes que escolheram. São nomes que a Madame Hey deu, em noite de riso e vinho, quando os viu pela primeira vez, um no ombro esquerdo, outro no direito, miauando contradições.
Não são bons nem maus. São forças. Ângelo fala de cuidado, calma, esperança. Arrepius fala de risco, impulso, e se? Juntos, são criação. Separados, são incompletos e por isso, nunca estão separados por muito tempo.
Como aparecem?
Quando alguém precisa decidir. Não escolha simples, chá ou café, sair ou ficar.
Decisão de cruzamento, de momento que define, de antes e depois.
A Madame Hey os viu quando decidiu comprar o terreno.
Ângelo, no ombro: "É exatamente. É finalmente. É seu."
Arrepius, no outro: "É muito. É grande. É medo."
Não decidiram por ela. Decidiram com ela. É diferença que define Solar: vozes que não mandam, apenas lembram que decisão é sempre, em algum sentido, ambas.
"Ângelo e Arrepius não são consciência. São consciência que se diverte, brincando de anjinho e diabinho, sabendo que ambos são necessários, que ambos são verdade."
Com Morcélio da Silva, na noite de queijo:
Arrepius, no batente da janela, cauda que não existe batendo: "E se a gente pegasse só um pedacinho?"
Ângelo, do outro lado, patinha que não toca tocando o peito de Morcélio: "ARREPIUS!"
Arrepius, sem se mover do lugar, olhar que é brilho: "Tá bom… dois pedacinhos."
Morcélio, sendo Silva, sendo morcego, sendo fraco diante de queijo, não sabe se ouviu, se imaginou, se sempre quis e agora tem permissão.
Pega dois pedacinhos.
Não um, Arrepius venceu parcialmente.
Não três, Ângelo venceu parcialmente.
Dois, que é número de acordo, de ambos, de Solar.
Arrepius abre frasco. Não com pata, com vontade, que em gatinho de força é suficiente. "E se a gente misturar isso… com isso… e com isso?"
Ângelo entra correndo, branco que é claridade: "ISSO É SÁLVIA COM CANELA E PÓ DE ESTRELA!"

Arrepius, preto que é brilho: "Exatamente!"
Baltazar, sendo guaxinim, sendo curiosidade sem culpa, mistura. Resultado é chá que faz Madame Hey sonhar com lugares que não visitou. Não pesadelo, não delírio, visita. Ângelo garante que ela acorde.
Arrepius garante que lembre.
Ambos vencem.
Arrepius espalha milho. Não com pata, com ideia, que em gatinho de força é suficiente. Milho em linha que não é natural, em padrão que é mensagem, em caminho que leva para… para onde?
As galinhas entram em assembleia imediatamente. Margareth vê chegada de algo. Josefina vê migalha que não foi deixada por humano. Judith vê intenção, que é pior que briga.
Clotilde, a do silêncio, grita: "FOI SABOTAGEM!"
Ângelo aparece, branco que é calma: "É apenas milho. É apenas brincadeira. É apenas teste."
As galinhas, sendo galinhas, não acreditam totalmente. Mas acreditam parcialmente, que é como acreditam de tudo. E ciscam o milho, que é comida, que é prova, que é Arrepius sendo atendido em sua bagunça e Ângelo sendo atendido em sua paz.
O segredo de Arrepius
Apesar de parecer, de ser, bagunceiro, provocador, incitador de confusão, Arrepius tem função que não é oposição a Ângelo. É complemento.
Ele representa:
Curiosidade que não pergunta "posso?"
Rebeldia que não espera "deveria?"
Vontade de testar limites que é, no fundo, vontade de saber onde limites estão
Sem ele, o Solar seria certinho demais.
Seria Ângelo sem contraste, luz sem sombra, ordem que é prisão disfarçada.
Arrepius é tempero.
É pimenta no doce, é nota dissonante que resolve, é erro que torna perfeição interessante.
"Arrepius não é vilão. É necessário. Como Ângelo é necessário. Como ambos são necessários juntos, no mesmo ombro, no mesmo momento, no mesmo miau que é pergunta e resposta."
Todos veem.
Não são invisíveis, não são mistério, não são só para quem acredita. São gatinhos, e gatinhos são vistos por todos, por Madame Hey, que sorri; por Sir Ratatônio, que desconfia; por Morcélio, que não sabe se ouve ou imagina; por Baltazar, que não se importa; pelas galinhas, que entram em assembleia; por Lucerna, que brilha mais quando ambos aparecem, porque decisão é luz que intensifica.
Não são reais no sentido de Rudolph, de comer, de dormir, de ser gato. São reais no sentido de Solar: de força, de tendência, de voz que não existe mas é ouvida. Gatinhos feitos de possibilidade, de escolha que ainda não foi feita, de momento antes do momento.
Hoje
Continuam aparecendo. Continuam miauando contradições. Continuam sendo Ângelo, cuidado, calma, esperança e Arrepius, risco, impulso, e se? no mesmo ombro, na mesma decisão, no mesmo Solar que vive entre luz e sombra, ordem e bagunça, Jardim da Lua e Jardim da Meia-Noite.
A Madame Hey, às vezes, tenta acariciar Ângelo. Mão passa através ou quase através, ou através de algo que é quase gato. Não importa. Importa que tentou. Que reconheceu. Que deixou, no ombro, espaço para ambos.
"As Duas Vozes do Solar não são anjinho e diabinho de conto moral, onde um deve vencer. São anjinho e diabinho de criação, onde ambos devem ser ouvidos. Onde decisão é não escolha entre, mas síntese de. Onde gatinho branco e gatinho preto, no mesmo ombro, no mesmo miau, lembram que Solar é lugar de ambos, sempre ambos, nunca só um, nunca só outro."
---
No Solar, acreditamos que decisão não é linear. Que cuidado e risco são irmãos, não inimigos. E que dois gatinhos pequenos, visíveis a todos, miauando contradições no ombro de quem precisa decidir, são forma mais honesta de ajuda: não escolhendo por você, apenas lembrando que escolha existe, e que, sendo Solar, será sempre, gloriosamente, terrivelmente, ambas.






Comentários