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Baltazar Remexe-Frascos

  • 16 de mar.
  • 5 min de leitura


Há no Solar animais que guardam.

Animais que cantam.

Animais que traçam, que piscam, que persistem, que esperam.


E há Baltazar.


Baltazar não guarda.

Não canta.

Não traça, não pisca, não persiste na mesma medida, não espera no sentido que o Solar entende espera.


Baltazar remexe.


Não foi convidado.

Não foi encontrado.

Apenas aconteceu, da forma como acontecem no Solar as coisas que precisam acontecer, sem aviso, sem cerimônia, com lógica própria que só se revela depois.


Era noite. A Madame Hey preparava chá demorado, daqueles que começam como erva, água, fogo, e terminam como memória, como tempo que se tomou, como decisão de não ter pressa.

Ela virou para pegar água.

E ouviu.


Tilintar de vidro.

Pequeno.

Quase delicado, se vidro pudesse ser delicado quando movido por mãos que não deveriam estar ali.


Não era vento, vento não tilinta, vento sussurra, e o Solar conhece ambos.

Não era Tobias Vagalume, Tobias pisca, não tilinta, e quando pousa, pousa em folha, não em frasco.


Era um guaxinim.


Sentado na mesa da botica.

Não em cima, sentado, como quem tem direito.

Com as duas mãozinhas, mãos, não patas, mãos de dedos que se dobram e seguram e decidem, dentro de um frasco de pétalas secas.

Olhando para ela.


Expressão mais tranquila do mundo.


Não de invasor. De farmacêutico antigo, de aprendiz que já sabe mais que o mestre, de morador que chegou antes da casa ser construída e apenas esperou ela alcançá-lo.


— Você não deveria estar aí — disse a Madame Hey.


Baltazar inclinou a cabeça.

Não de culpa. De pergunta: "E quem disse que não?"


Ninguém disse. Ninguém precisava dizer. No Solar, regras são para quem precisa de regras. Baltazar precisava de frascos.


Desde então, ele nunca mais foi embora.


Guaxinins têm mãos. Mas as mãos de Baltazar pensam.


Ele abre frascos que estavam fechados há anos, não com força, com entendimento. Com rotação de pulso que a Madame Hey tentou imitar, falhou, desistiu. Algumas tampas só Baltazar abre. Algumas tampas, dizem, ele inventou de abrir, criando necessidade que não existia antes.


Mistura ervas que nunca foram misturadas. Não por rebeldia, por curiosidade. Por pergunta que não se formula em palavras: e se? E se alecrim encontrasse lavanda? E se três sementes de Tobias, esquecidas, encontrassem casca de abóbora Guardiã?


Uma vez, misturou exatamente isso.


O resultado foi chá que fez Sir Ratatônio falar dormindo em latim cerimonial.


Ninguém sabia que Ratatônio sabia latim. Ninguém sabia que dormia. Baltazar, quando contaram, não pareceu surpreso. Apenas satisfeito, da forma como farmacêutico fica satisfeito quando fórmula funciona, mesmo que não saiba como, mesmo que não possa replicar.


Desde então, ganhou respeito científico.


"Baltazar não é cientista. É alquimista, no sentido Solar: quem transforma sem entender, apenas fazendo."


Sir Ratatônio o considera perigoso.

Com razão.

Qualquer criatura que mexe em frascos sem ritual, sem protocolo, sem dignidade de espera, é potencialmente revolucionária.

Revolução, para Ratatônio, é ameaça.


Mesmo assim

às vezes pede ajuda.

Quando precisa de mistura que não sabe fazer, de cheiro que não consegue encontrar, de algo que lógica de rato não alcança.

Baltazar atende, sem comentar.

Farmacêutico antigo não julga cliente.

Apenas entrega.


Morcélio da Silva odeia Baltazar.

ódio de Silva, que não é raiva, é inconveniência.

Baltazar descobriu o esconderijo secreto de queijo

não por malícia, por exploração.

Guaxinim explora. É natureza.


Agora, toda vez que Morcélio vem, há imposto. Baltazar inspeciona. Cheira. Avalia. Não come, não é para comer, é para saber.

E saber, no caso de queijo, é poder que Morcélio não quer compartilhar.


Mas paga. Sempre paga. Com pedaço pequeno. Cerimonial. E Baltazar, inspecionando, permite.


Tobias Vagalume adora. Adora porque Baltazar, remexendo, derruba. Sementes que não eram para serem derrubadas. Pétalas que não eram para serem libertadas. O jardim agradece

ou agradece Tobias, que encontra o que foi derrubado, que planta onde não lembra, que esquece e faz florescer.


Baltazar não sabe que é pai de margaridas.

Tobias não sabe que é pai de margaridas.

O jardim sabe. E basta.


Lucerna, na luminária, observa. Não participa, luz não remexe, luz ilumina.

Mas observa com atenção que é quase carinho.


Ela diz, para quem não ouve (e quem ouve não entende, e quem entende não precisa que seja dito): Baltazar tem qualidade rara. Curiosidade sem culpa. Não pergunta "posso?". Não pergunta "devo?". Pergunta apenas "e se?", e responde com mãos, com frasco, com mistura que acontece.


No Solar, onde tanta coisa espera, onde tanta coisa persiste, curiosidade sem culpa é revolução. É luz de outra cor.


Há hábito estranho na botica. Quando Baltazar mexe nas ervas, ele lava.


Guaxinins fazem isso com comida, água tira sujeira, tira perigo, tira o que não se quer. Mas Baltazar lava até flores secas. Ervas que já foram lavadas, secadas, guardadas. Ervas que não precisam.


A Madame Hey perguntou, uma vez:


— Por que você faz isso?


Baltazar não respondeu. Guaxinim que responde pergunta direta perde mistério. E mistério, para Baltazar, é ingrediente tão importante quanto qualquer erva.


Mas desde então, ela percebeu: ervas lavadas por ele ficam mais vivas. Não mais fortes, mais eficazes, mais alguma coisa mensurável. Mais presentes. Como se água tirasse não poeira, mas cansaço do tempo. Como se, lavando, Baltazar acordasse o que estava dormindo, não morto, apenas esquecido de ser vivo.


"Baltazar não cura. Não é curandeiro. É despertador de ervas, de possibilidades, de e se que dormia no fundo do frasco."


No Solar, há regra não escrita sobre Baltazar. Não regra que ele segue, ele não segue regras, segue frascos. Regra que outros seguem em relação a ele:


Se Baltazar mexeu em um frasco, não pergunte por quê. Espere para ver o que vai acontecer.


Porque às vezes ele cria:


- Chás que acalmam sonhos que não eram para serem lembrados

- Caldos que lembram infância que não foi vivida nesta casa

- Aromas que fazem a casa respirar, não metáfora, respiração real, ar que entra e sai como se Solar tivesse pulmão.


E às vezes ele cria apenas… bagunça enorme.


Ervas no chão. Vidro quebrado. Cheiro que não é cheiro, é confusão de cheiros, que demora dias para se separar em componentes reconhecíveis.


Mas no Solar, bagunça também é ingrediente. Bagunça é possibilidade que ainda não se organizou. E organização, quando vem, se vem, vem no tempo do Solar, não no tempo de quem espera.


Baltazar continua na botica. Continua remexendo. Continua lavando o que não precisa, misturando o que não deveria, derrubando o que Tobias agradece.


Não é guardião. Não é proteção, não é voz, não é luz. É mão. É ação. É e se feito por guaxinim, feito curiosidade, feito presença que não pede permissão porque não sabe que precisa.


A Madame Hey, às vezes, observa. Não intervém. Intervir seria negar o que Baltazar é e o que ele é, por mais inconveniente, por mais bagunceiro, por mais latim cerimonial em sono de rato, é necessário.


Porque em casa que espera demais, que persiste demais, que respeita demais o tempo das coisas, alguém precisa fazer. Alguém precisa remexer. Alguém precisa perguntar "e se?" com mãos, não com voz.


Baltazar é esse alguém.


"Baltazar Remexe-Frascos não é herói. Não é sábio. É farmacêutico antigo de botica que não sabia que precisava dele e que, precisando, descobriu que não sabia como viver sem. No Solar, isso é moradia. Isso é amor. Isso é frasco aberto que nunca mais se fecha do mesmo jeito."


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No Solar, acreditamos que curiosidade é virtude, mesmo quando derruba, mesmo quando mistura errado, mesmo quando cria bagunça que demora dias para limpar. Porque em casa que vive, que respira, que espera, alguém precisa ser o que não espera. Alguém precisa remexer. E Baltazar, com mãos que pensam, com olhar tranquilo de quem nunca pediu desculpas por existir, é esse alguém. Nosso guaxinim. Nosso e se. Nosso frasco que nunca mais será o mesmo.


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