Leonardo - dono da noite
- 16 de mar.
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Há no Solar uma criatura que não manda na noite. Conhece.
Não é dono no sentido de posse, de controle, de meu e não seu.
É dono no sentido de habitante primordial, de quem estava lá antes de haver lá para estar, de quem a noite reconhece como seu, não por submissão, por afinidade.
Porque Leonardo, coruja, silêncio, olho que não pisca, é mais noite que a própria escuridão.
Ele vive no telhado.
Não no Jardim da Meia-Noite, ali é território do Gato Preto, e Leonardo, sendo dono, sabe que alguns territórios não se disputam, se respeitam.
Vive na beira, na cumeeira, no limiar de telha onde o ar é mais frio e a lua, quando existe, chega primeiro.
Seu nome é Leonardo. Não porque alguém o deu, ele não teria aceitado. É nome que se aproximou, que se ajustou, que soou como ele é: antigo, digno, pessoa apesar de não ser pessoa.
Nome de quem poderia ter sido pintor, filósofo, pensador de coisas grandes, e em vez disso escolheu ser observador de tudo.
"Leonardo não é sábio porque sabe. É sábio porque espera e espera, na noite, é forma mais completa de conhecimento."
Vê quem atravessa o jardim depois da meia-noite. Não apenas passa, atravessa, com intenção, com peso, com mudança que ainda não se decidiu. Vê Sir Ratatônio em suas buscas, e não intervém, apenas registra. Vê Tobias Vagalume piscar entre árvores, e sabe, sabe sem saber como, que piscar daquele jeito, naquela hora, significa amor, ou medo, ou ambos.
Vê Arrepius tramando. Sempre vê. Arrepius, sendo força, sendo gatinho de impulso, não se esconde bem de quem não busca ver com olhos. Leonardo vê, e quando vê, não age. Apenas sabe. E saber, no caso de Arrepius, é já metade da defesa.
Vê quando a casa respira diferente. Não metáfora: respiração. Madeira que expande, contrai, que faz som que não é som, é vida. Leonardo, no telhado, é primeiro a sentir. E quando sente, fica mais imóvel ainda se é que isso é possível, porque mudança merece atenção total.
Fala pouco. Corujas falam pouco. Mas quando fala, uhu que não é pergunta, é declaração, todos escutam. Sir Ratatônio, que é cerimônia, que é protocolo, trata-o com exagerada reverência. Inclinações que não são necessárias, silêncios que se estendem demais, perguntas que são realmente homenagens disfarçadas.
Leonardo suporta. Com paciência de coruja, que é paciência de pedra, de lua, de tempo que não passa porque já está no lugar certo.
A amizade com Morcélio da Silva
Improvável. Necessária.
Leonardo: silencioso, elegante, observador, disciplinado. Cada movimento é decisão, cada olhar é cálculo, cada noite é missão de vigilância.
Morcélio: guloso, atrapalhado, curioso, meio clandestino. Asas que batem errado, cheiro de queijo que precede, Silva de quem não sabe ser misterioso mas tenta.
Mesmo assim, amigos.
Morcélio aparece no telhado. Não voa com graça, sobe, de asa em telha, de pausa em pausa, de quase queda em quase queda. Chega com queijo escondido. Sempre escondido, sempre mal, sempre óbvio para quem tem olho de coruja.
Leonardo olha. Cabeça que gira, não rapidamente, completa180 graus, 270, o quanto for necessário para que o olhar encontre Morcélio, encontre queijo, encontre situação.
— Isso não é digno da noite.
Voz que não é voz, é vibração de ar, é julgarmento sonoro.
Morcélio, sendo Silva, sendo morcego, sendo fraco diante de queijo e de amizade, responde:
— Mas é delicioso.
E come.
E Leonardo, sendo Leonardo, sendo amigo apesar de si mesmo, não vira cabeça de volta. Fica. Observa. Permite.
Porque noite, sendo dele, pode ter espaço para queijo. Pode ter espaço para gulodice, para atrapalhação, para Silva que não sabe ser elegante. Pode, especialmente, ter espaço para companhia, mesmo que negue, mesmo que julgue, mesmo que uhu de desaprovação.
"Leonardo não gosta de queijo. Não gosta de cheiro, de gordura, de necessidade visível que queijo representa. Mas gosta, embora não admita, de Morcélio. E Morcélio, sendo Morcélio, é queijo. Então, no cálculo de coruja, noite que tem Morcélio tem queijo, e noite que tem queijo… tem algo que noite pura não tem: permissão para ser imperfeita."
A paixão secreta
Há no Jardim da Lua um beija-flor. Não sabe que é observada. Não precisa saber, seria peso, seria responsabilidade, seria fim de voo que é essência dela.
Leonardo a observa. De longe, de telhado, de noite que ainda não amanheceu. Não se aproxima. Nunca se aproximaria. Porque:
- Aurélia — ou Celeste, ou Florinda, nome que ele nunca disse em voz que não é voz, é manhã. É vibração onde ele é silêncio. É movimento onde ele é imóvel. É beija de flor onde ele é garra de presa.
E ele, sendo noite, sendo dono, sendo completo em si mesmo, reconhece que alguns amores não são para serem tocados. Apenas vistos. Apenas sabidos. Apenas secretos que iluminam quem os guarda.
Tobias Vagalume sabe. Não porque Leonardo contou, corujas não contam. Porque pisca, e em piscar, reconhece padrão: luz que não é minha, direção que não é minha, atenção que não é para mim. Tobias, sendo esquilo, sendo esquecedor de sementes, não esquece isso. Guarda, sem intenção, sem interesse de usar.
Arrepius sabe. Arrepius, sendo força, sendo gatinho de revelação, tenta expor. Sussurra no telhado, para vento, para Morcélio que não entende, para qualquer um:
— Leo gosta da beija-flor…
Leonardo gira cabeça. Lentamente. Completamente. Silêncio que não é ausência de som, é presença de ameaça, ameaça que não é violência, é dignidade ofendida, é segredo que não queria ser segredo mas não queria ser público.
Arrepius desaparece. Gatinho preto que é brilho, que é impulso, que é medo de coruja que não se move mas que vê.
Ângelo aparece. Branco, calma, ARREPIUS! de quem defende, de quem protege até o que não deveria precisar de proteção.
Leonardo não agradece. Corujas não agradecem. Mas fica menos imóvel, o que, para ele, é suficiente.
Hoje Leonardo continua no telhado. Continua sendo Dono da Noite, não mandando, conhecendo. Continua vendo Tobias piscar, Arrepius tramar, casa respirar, Morcélio subir com queijo indigno.
Continua amigo de Morcélio, apesar de queijo, apesar de atrapalhação, apesar de Silva.
Continua amando beija-flor que não sabe dele. Que nunca saberá. Que, se soubesse, talvez voasse diferente, e isso seria perda maior que não ser amada.
"Leonardo, o Dono da Noite, é prova de que noite não é ausência. É presença diferente. É lugar para amizade improvável, para amor impossível, para silêncio que é mais eloquente que qualquer canto. No Solar, onde dia e noite se conversam, onde Jardim da Lua e Jardim da Meia-Noite se tocam, ele é ponte, não porque queira, porque é."
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No Solar, acreditamos que noite tem dono, e que dono não é tirano. Que coruja pode amar beija-flor, e que amor, sendo secreto, sendo distante, sendo impossível, é amor ainda assim. E que amizade entre elegância e atrapalhação, entre noite e queijo, entre uhu de julgamento e delicioso de resposta, é prova de que Solar é lugar de ambos, sempre ambos, nunca só um, nunca só outro.





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