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Morgana M'argarida - A viajante

  • 6 de jun.
  • 3 min de leitura



Há no Solar um quarto que nunca está completamente ocupado.


Uma mala permanece aberta.


Um mapa permanece sobre a mesa.


Uma caneca permanece esperando.


E ninguém sabe exatamente quando sua dona voltará.


Ou para onde foi desta vez.


Esse é o quarto de Morgana M'argarida.


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Diferente de suas irmãs, Morgana nunca procurou um lugar.


Procurou caminhos.


Há pessoas que encontram uma porta e entram.


Morgana encontra uma estrada e segue.


Não porque esteja perdida.


Porque está curiosa.


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Seus cabelos dourados são curtos demais para os padrões da família.


O que, segundo ela, economiza tempo.


Segundo Minerva, desafia tradições.


Segundo Margot, combina com sua personalidade.


Segundo Malvina, fica bonito quando venta.


Morgana considera as quatro opiniões válidas.


Mas continua cortando o cabelo como quer.


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"O horizonte nunca foi uma promessa.


Foi um convite."


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Seu quarto dentro do Solar parece uma estação de partida.


Mapas cobrem mesas.


Bilhetes vivem esquecidos entre livros.


Cartões-postais surgem dentro de gavetas.


Cadernos aparecem em lugares improváveis.


E há sempre uma mala aberta.


Sempre.


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Naquele quarto encontram-se:


- Moedas de lugares distantes.


- Areia guardada em pequenos frascos.


- Pedras sem valor comercial e valor emocional altíssimo.


- Cadernos preenchidos apenas pela metade.


- Bilhetes de viagem.


- Listas de ideias.


- Rotas que nunca aconteceram.


- Sonhos que aconteceram por acidente.


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E, curiosamente, tudo permanece organizado.


Não pela lógica de Minerva.


Nem pela criatividade de Malvina.


Mas pela lógica de alguém que sabe exatamente onde procurar quando decide partir.


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Seu companheiro é Rudolph.


Um gato dourado de espírito aventureiro.


Pequeno explorador.


Especialista em entrar onde não deveria.


Especialista em descobrir passagens que ninguém percebeu.


Especialista em convencer pessoas de que a confusão foi ideia delas.


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Rudolph acompanha Morgana em muitas viagens.


E, embora ela jamais admita oficialmente, costuma ser o primeiro a encontrar problemas.


E também soluções.


Nem sempre nessa ordem.


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"Morgana acredita que curiosidade é uma forma de coragem."


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Há quem imagine que ela viaje porque não consegue ficar.


Não é verdade.


Morgana sabe ficar.


Ela apenas também sabe partir.


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Existe uma diferença importante entre fugir e explorar.


Fugir é abandonar.


Explorar é expandir.


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Morgana não foge do Solar.


Ama o Solar.


Ama a casa.


Ama as irmãs.


Ama o quarto que sempre a espera.


Mas ama também aquilo que existe além das cercas.


Além das colinas.


Além dos mapas conhecidos.


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Enquanto Margot observa pessoas.


Enquanto Minerva observa símbolos.


Enquanto Malvina observa sementes.


Morgana observa possibilidades.


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Porque acredita que nenhuma vida deveria caber em apenas uma versão de si mesma.


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Ela escreve sobre:


Mudanças.


Escolhas.


Carreira.


Dinheiro.


Independência.


Propósito.


Viagens.


Mas no fundo escreve sobre a mesma coisa.


Liberdade.


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Não a liberdade de fazer qualquer coisa.


Mas a liberdade de escolher conscientemente o próprio caminho.


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"Morgana não acredita que o destino esteja escrito.


Acredita que ele esteja sendo escrito."


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Às vezes retorna ao Solar sem aviso.


Aparece na cozinha.


Deixa presentes estranhos sobre a mesa.


Conta histórias improváveis.


Abraça as irmãs.


Toma chá.


E desaparece novamente alguns dias depois.


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Como se o mundo inteiro fosse sua vizinhança.


E talvez seja.


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Hoje, Morgana continua viajando.


Continua descobrindo.


Continua perguntando o que existe depois da próxima curva.


Continua acreditando que a vida é grande demais para ser vivida apenas uma vez da mesma maneira.


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Morgana M'argarida, a Zeladora dos Horizontes, é a prova de que raízes e asas não são inimigas. Que é possível amar o lugar de onde viemos sem deixar de explorar o lugar para onde podemos ir. E que alguns caminhos não existem para nos afastar de casa. Existem para nos ensinar a voltar diferentes.


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Dos Arquivos do Solar


No Solar acreditamos que permanecer é importante.


Mas acreditamos também que partir também é.


Morgana é essa crença transformada em estrada, em mapa dobrado, em mala aberta e em horizonte.


Porque algumas pessoas observam o mundo.


Morgana prefere atravessá-lo.

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